sábado, 29 de maio de 2021

Pai Jacinto

 


Nenhuma descrição de foto disponível.Com a implantação de fazendas de gado e cultura em solo Brasileiro muitas vezes ou quase sempre sacerdotes do culto Africano chegavam trazidos como escravos pelos navios de contrabandistas que ganhavam a vida destruindo a de outros , entre estes vindos de tão longe e com a missão dada por Oxalá de divulgar sua Religião engrandecendo outras terras com sua sabedoria e bondade.

Entre estes chegava então um jovem que estava predestinado a ensinar amor e sabedoria , ainda menino foi introduzido no trabalho árduo e sem trégua , por sua bondade e sabedoria logo cativou a todos até mesmo seus senhores que percebendo sua condição de tratar com animais feridos ou doentes, solicitavam sempre seus serviços, logo estando este que seria um sacerdote em sua terra , curando e tratando pessoas a pedido de seus senhores ,era ele então tratado diferente em meio a tanta crueldade.Todos eram socorridos por Pai Preto como era chamado pelos brancos.

A fama de pai Preto correu longe em solo brasileiro tanto que chegou sem tardar ao conhecimento dos missionários vindos para catequizar os povos da nova terra , Pai Preto tinha então 85 anos já velho e quase não mais conseguia andar o que não impedia de continuar com suas curas e benzeduras. Mas chegou a ordem e a orientação: Pai Preto era "feiticeiro e deveria morrer como todos de sua época."

Os seus antigos senhores não tiveram coragem de cumprir a missão e então combinaram de esconder Pai Preto e este ficaria assim até a morte cuidando e claro dos interesses de seus senhores. Mas Pai Preto que nunca soube dizer não ou se intimidar por qualquer perigo não se deteve e continuou com suas mirongas , suas rezas e sua caridade sem fim. Logo a noticia correu , seria um fantasma ou quem sabe ele teria ressuscitado para desafiar quem mandava? Nova ordem chegou: então o "feiticeiro deveria ser desenterrado e sua cabeça arrancada do corpo e enterrada em outro local somente assim o "mal"deixaria de existir.

Aqueles que tentaram esconder Pai Preto agora com medo decidiram matá-lo e cumprir o que lhes foi ordenado, tendo assim aos 86 anos Pai Preto deixado o plano físico para trabalhar com suas mirongas em planos mais elevados.

Hoje nós que aprendemos a amar a Umbanda com toda sua sabedoria aprendemos sempre um pouco com aqueles que deixaram esta grande lição de vida e humildade. Pai Preto é hoje para nós Pai Jacinto que ao lado de Omulu traz a cura para os sofredores dos dois planos. Pai Jacinto recebeu de Oxossi o direito de trabalhar em sua vibração o que para nós só é motivo de mais felicidade pois como raizeiro e conhecedor das matas levou para o plano espiritual este conhecimento para bênção dos filhos da terra.

Salve Pai Jacinto Salve todos os Pretos Velhos.

Historiasdeterreirosdeumbanda
#Povodafloresta

quarta-feira, 26 de maio de 2021

NA CONSULTA COM NEGRO AMBRÓSIO

 


Pode ser uma imagem de 1 pessoa e texto que diz "A Umbanda por si só não faz milagres. o milagre está dentro de ti elchama Fé. E a Fé, Umbanda te ajuda senco TUP"Suncê pondera filho! Perdoa!
Num carece de ficar com essa mágoa em seu coração.
Mágoa filho é elixir destruidor, pois, vai é corroer filho por dentro.
Essa era as fala do Negro Ambrósio que via mais além do que aquele consulente estava enxergando. Afinal de contas à lei dos efeitos guardava consigo causa desastrosa.
- Mas, nego Ambrósio! É mais forte do que eu! Quando vejo aquela mulher vem a minha mente toda a traição que ela me fez, além do mais ela financeiramente quase me arruinou. Isso sem falar nos comentários dos vizinhos e amigos que por certo já sabiam do procedimento imoral daquela desavergonhada. Dei casa, nome, conforto...Nada lhe faltava e mesmo assim ela me tratou com ingratidão.
- Eu sei filho,
- Então se sabe porque me pede para perdoa-la? Ela é quem me deve perdão! Não sei onde estava com a cabeça que não a levei as raias de um tribunal? Lá ela teria um julgamento merecido.
- Sua cabeça filho estava nos negócios onde suncê dedicava tempo integral, afinal de contas o material sempre lhe falou mais alto.
Enquanto o homem falava ao nego Ambrósio, o pito do negro soltava fumaça envolvendo o consulente desagregando as energias deletérias e perniciosas que o mesmo trouxera consigo devido o combustível vingança e ódio que ele acalentava.
- Ninguém acusa filho, sem ser réu também. Por certo filho, o tribunal dos homens sempre terá as sentenças cabíveis de execução para cada caso, o que filho num se alembra é que acima desse existe um tribunal superior responsável pela Lei divina e que aplica aos filhos da terra as medidas necessárias de reajuste por mal feitos no ontem. Suncê diz que deu casa, nome e conforto – o que é verdade – porém esqueceu de dar atenção, respeito e carinho a quem suncê agora condena. Ninguém passa pelo que não mereça, além do que filho ninguém cai sozinho. Essa irmã veio em teu caminho buscando amparo e proteção, porém trazia consigo espinhos morais que suncê precisava retirar. A mais do que filho suncê em outra existência lhe causou muitos danos fazendo a ela muito pior do que ela lhe fez. O passado vorta filho e sempre nos acha no endereço certo. Ele só deixa de vortar quando nois já fiquemo quite com Ele. Por essa razão te peço para perdoar, pois esses teus pensamentos de vingança vão te levar a muito sofrimento e há um lugar onde nego Ambrósio num vai poder te buscar prá prosear – o que gosto muito de fazer - . O amor é melhor que a dor! Escuta faladô do nego!
- Vingança! Quem falou em vingança aqui! Eu só não consigo perdoar!
- Vingança sim filho! Suncê num engana Ambrósio não! Inté porque tua aura denuncia essa menina e vejo ao teu lado as companhias espirituais que arranjou. Para seu governo filho tudo que nois pensa produz eco; é como se fosse um imã que vai em busca de outro, é como o anzol que nois coloca na vara para fazer pescaria. Por essa razão suncê trouxe para junto de si outras mentes que se nutrem na vingança. Elas passaram a te seguir e o que hoje pra suncê pode ser doce no final vai ter um travo amargo que suncê num vai gostar e nem suportar beber. Mais num carecer agora se aperrear pois está no lugar certo e o socorro do hospital de Aruanda virá para suncês.
O consulente ficou estático de olhos parados no olhar do médium que servia de instrumentação ao negro Ambrósio, e, embora, não visse a fisionomia da entidade sentia-lhe a vibração. Naquele instante todo um turbilhão de emoções se passou em seu íntimo e de seus olhos uma represa começou a jorrar.
Depois de um tempo o consulente falou:
- Nunca pensei que viria a um local desses para escutar o que estou escutando!
- Eu sei disso também filho! Pra suncê um templo de Umbanda é local de fazer mardade e não uma prosa esclarecedora. Suncê achava que aqui iria encontra uma maneira de ir a forra sem perder o teu prestígio social, pois ninguém iria desconfiar da destruição que assolaria a vida dessa senhora que apesar de tudo suncê adevia ter respeito por ser a mãe de teus rebentos. Depois aos amigos e vizinhos filho ainda bateria no peito dizendo: estão vendo vocês, a lei de Deus tarda mais não falha! Que Deus tenha misericórdia dessa mulher!
Nesse momento uma das companhias espirituais que viera com o consulente se manifestou por outro médium que o atraiu a pedido de seu mentor e de nego Ambrósio. Esse primeiro socorro seria fundamental para ambas as partes. A onda mental corrosiva seria cortada e o plug obsessivo seria desativado.
Consulente e Ambrósio olharam a incorporação da entidade que não agüentava nem ficar de pé. Com sua visão espiritual negro Ambrósio viu o olhar dementado da entidade, as correntes que o prendiam e as marcas de chicote retalhando seu corpo astral.
- Olha filho! O que suncê tá vendo por meio do médium que tá socorrendo a entidade não mostra nem 30% de como está esse filho.
Abismado o consulente que agora não conseguia nem levantar a vista disse:
- Me perdoe! Eu fui um irresponsável e julguei o que não sabia.
- Num tenho o que lhe perdoar filho, só a lhe esclarecer com a permissão de Zambi, num to aqui para lhe julgar também, mais para lhe ajudar! Vou passar umas ervas e o filho vai fazer banhador no corpo para retirar as derradeiras energias que maltratou ele por essa convivência. Espero que filho tenha aprendido a lição e toda vez que suncê ver a irmã ou pensar nela pergunte a suncê mesmo: onde eu tava que não notei essa fraqueza dela? Nem sempre filho tava em casa para cumprir com os compromisso paternais e de marido! E aprende filho que toda história tem várias explicações e que mesmo assim nenhuma delas justifica uma atitude de vingança, a casa de Umbanda filho é uma casa que trabalha em nome do Cristo Jesus.
- Quando quiser prosear filho, nego Ambrósio estará aqui. Que Oxalá te abençoe!
Após o retorno do consulente a assistência negro Ambrósio se levantou levando consigo nos braços espirituais a entidade socorrida e diante o Cruzeiro de Pai Omulú desincorporou dizendo:
Atotô meu Pai!
Saravá o Senhor Omulú! Levo em meus braços mais um filho resgatado.
No terreiro a harmonia imperava. Os demais pretos que trabalharam na sessão também fizeram sua retirada. No ar um cheiro de rosas brancas; nos médiuns um sentimento de felicidade e agradecimento por mais uma sessão, por mais um socorro, por mais uma libertação!
Mais uma vez o amor venceu!
“Eu adorei as almas!”
Pai Firmino do Congo
Médium Mãe Luzia Nascimento

segunda-feira, 24 de maio de 2021

BATE-PAPO COM “NEGO-VEIO”

 


Nenhuma descrição de foto disponível.À noite, quando a maioria das pessoas estão dormindo, diversas falanges espirituais se desdobram em trabalhos socorristas de assistência à humanidade encarnada. Devido ao sono, a queda natural do metabolismo e das ondas cerebrais, o corpo espiritual desprende-se naturalmente do corpo físico.

Aproveitando-se desse fato natural e inerente a todo ser humano muitos amigos espirituais trabalham nessa hora da noite retirando essas pessoas do seu corpo físico, dando um toque sensato a elas diretamente em espírito, ou, simplesmente, trabalhando as energias do assistido com mais liberdade a partir do plano espiritual da vida.
Fernando Sepe

Um dia desses, durante um trabalho de assistência, estava conversando com um Preto Velho, que responde nas lidas de Umbanda, pelo nome de pai José da Guiné. Segue o diálogo:

— Pai José, esse trabalho de assistência na madrugada é enorme, não? O médium umbandista muitas vezes nem imagina o tamanho dele, não é mesmo?

— É sim fio. trabalho grande, toda noite. Mas são poucos que lembram da espiritualidade dia-dia e mantém sintonia elevada antes de dormir. Isso acaba por barrar as possibilidades de trabalho em conjunto conosco, você sabe disso. A maioria dos médiuns por aí pensam que o único dia de trabalhoespiritual é o dia de trabalho no terreiro. É uma pena.

— É verdade, as pessoas tendem a se preparar muito para o dia de trabalho no terreiro, mas esquecem dos outros dias.

_ Preparar? Muitas vezes eles nem se preparam fio. A maioria chega lá cheia de problemas e preocupações na cabeça. Dá um trabalhão danado acoplar na aura toda encardida de pensamentos e sentimentos estranhos deles. E nego num tá falando que preparação é tomar um banho de erva antes do trabalho, não…

— Ué, mas o banho de erva é importante, não é pai?

— É, claro que é. Mas num é tudo. Antes do banho de erva, seria melhor um banho de bom-humor, com folhas de tranqüilidade e flores de simplicidade, hehehe… Isso sim ajudaria. Num adianta colocar roupa branca, defumar, tomar banho, se o coração tá sujo, se a boca maldiz, se o rosto está sem alegria e o espírito apagado. Limpeza interna fio, antes de limpeza externa…

— Tá certo…

— Tá certo, mas você muitas vezes num faz isso né? Hehehe… Tudo bem, todo mundo tem lá seus dias ruins, o problema é quando isso se torna constante. Fio, a Umbanda é muito rica em rituais, em expressões exteriores de alegria e culto a divindade. Mas isso deve ser utilizado sempre como uma forma de exteriorizar o que de melhor trazemos dentro de nós. Não uma fuga do que carregamos aqui dentro. Volta seus olhos pra dentro e lá presta culto aos Orixás. Só depois disso, canta e dança…

— Quando estiver participando de um trabalho, esteja por inteiro, em corpo físico, coração e mente. Não faça das reuniões espirituais um encontro social. Antes de começar os trabalhos, medita, ora, entra em sintonia com o trabalho que já está acontecendo. Durante os cantos, busca a sintonia com os Orixás.
Nesse momento, você e Eles não estão separados pela ilusão da matéria. Tão juntos. Em espírito e verdade…

— Acompanha as batidas do atabaque e faz elas vibrarem em todo seu ser. Defuma seu corpo, mas defuma também sua alma, queimando naquela brasa seu ego, sua vaidade, seu individualismo, que lhe cega os sentidos.

— Trabalha, aprende, louva, cresce meu fio. Mas o mais importante: Leva isso pra fora do terreiro! Lá dentro, todo mundo é filho de pemba, todo mundo tá de branco, todo mundo ama os Orixás…

— Mas aqui fora, logo na primeira dificuldade, duvidam e esquecem dos ensinamentos lá recebidos. Aqui fora, num tem caridade, fraternidade, Orixá, espiritualidade. Mas a Lei de Umbanda não é pra ficar contida no terreiro. A Lei de Umbanda é pra estar presente em cada ato nosso. Em cada palavra, em cada expressão de nosso ser…

— Percebe fio? Você é médium o tempo todo, não só no dia de trabalho, mas todo dia. Você é médium até quando tá dormindo…hehehe
Pai José fez uma pausa e eu fiquei a pensar a respeito da responsabilidade do trabalho mediúnico. De quantos médiuns por aí nem tinham idéia do trabalho espiritual que as muitas correntes de Umbandadesenvolvem. De como, a vivência de terreiro, demandava uma mudança interior, uma postura diferente em relação à vida. Enquanto pensava a respeito, pai José disse:

— É por aí mesmo fio. A partir do momento que a pessoa internaliza os valores espirituais, um novo mundo, cheio de novas perspectivas surge. Novas idéias, novos ideais. Uma forma diferente de encarar a vida. Esse é o resultado do trabalho. A caridade não é mais uma obrigação, mas torna-se natural e inerente ao próprio ser, assim como a respiração. A sintonia acontece esteja onde ele estiver, carregando consigo a Lei da Sagrada Umbanda em seu coração…

— Lembre-se: Aruanda não é um lugar! Aruanda é um estado de espírito… Você a carrega para onde for. Isso é trabalho. Isso é sacerdócio. Isso é viver buscando a espiritualização…

— Por isso, meu fio, faz de cada trabalho espiritual que você participar um passo em direção a esse caminho. Um passo em direção a unidade com o Orixá. Cada reunião, um passo… Sempre!
Notas do médium: Pai José de Guiné é um espírito que há muito tempo eu conheço, trabalhador incansável nas lidas da cura espiritual. Apresenta-se como um negro, com cerca de 50 anos, sempre com seu chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça e seu olhar firme e determinado. Tem um jeito muito direto e reto de falar as coisas sempre nos alertando a respeito de posturas incompatíveis com o trabalho espiritual. É um espírito muito bondoso com quem já aprendi muitas coisas.

Fica aí o toque dele, que muito me serviu, a respeito de levar o terreiro para o nosso dia-dia.

FIZERAM ALGUMA COISA PARA MIM!

 


Nenhuma descrição de foto disponível.Aquela senhora se aproxima do preto-velho e começa a desfiar o seu rosário de lamentações:

-“Vovô, o senhor sabe, eu estou passando por momentos muito difíceis. Logo eu, que sempre fui tão boa para todo mundo... Acho que fizeram alguma coisa para mim. Caso contrário, não vejo outro motivo para tantos problemas. Sim, é isso! Só podem ter feito alguma coisa para mim”.

O preto-velho, paciente como ele só, e conhecedor do íntimo humano, apenas olha para a mulher e esboça um prenúncio de sorriso. Percebendo a face tranqüila do amigo espiritual, a consulente interpreta como um gesto de aceitação de suas lamúrias, e continua:

-“Isso mesmo, vovô, fizeram alguma coisa para mim. Meu marido está desempregado há quatro meses, meus três filhos estão passando por grandes dificuldades; o mais velho, agora com 26 anos, nunca conseguiu um trabalho no qual se adapte; o do meio, apesar de trabalhar, está passando por uma fase financeira muito difícil; e a mais nova, vovô – ah, a mais nova – como me preocupa! Vai muito mal nos estudos. Para completar, até em mim, que sou quem sustenta a casa, apareceu um furúnculo que está me tirando o sono. Isso mesmo! Foi um trabalho que fizeram pra mim, e tenho certeza de que foi a invejosa da minha vizinha”.

Para alguém que não conhecesse um pouco das tendências humanas atuais, a narrativa acima poderia realmente ser interpretada exatamente como contado pela consulente. Isso porque, muitas vezes, não conseguimos enxergar as situações por outros ângulos; ou talvez não queiramos enxergar, pois veríamos o quanto nossos atos são falhos e o quanto somos culpados pelos nossos próprios infortúnios. Tentar encontrar uma causa externa para todos os nossos problemas, ou seja, algo que não dependa de nós, é a reação instintiva que a maioria de nós ainda tem. Se a senhora do caso acima tomasse – de repente – uma pílula de sabedoria, talvez sua narrativa ficasse mais ou menos assim:

“Vovô, tenho muitos problemas, e sei que em muitos deles tenho uma grande parcela de culpa. Meu marido está desempregado há quatro meses. Não pára em emprego porque é alcoólatra, e não consegue encontrar outro porque não vence o vício e porque não tem ânimo para procurar. De minha parte, eu colaboro com a situação porque continuo custeando todas as suas necessidades e até o que não é necessário, não o estimulando a uma nova vida.

Meu filho mais velho, com 26 anos, nunca trabalhou, porque sempre acha que o emprego que consegue não está a sua altura. Acha sempre que pelo salário prometido não vale a pena o esforço. Eu colaborei com essa situação porque, na condição de mãe, não o ensinei que todo começo é difícil e que, para chegar ao topo é preciso começar pelo primeiro degrau. E, como faço com o seu pai, continuo custeando suas vontades, sem estimulá-lo ao trabalho.

O filho do meio, apesar de trabalhar, nunca tem dinheiro, porque gasta com farras e com o que não deve. Não deixa, contudo, de adquirir dívidas, pois quer usufruir de uma vida a que suas condições financeiras não correspondem. Como mãe, falhei e tenho falhado no ensino da responsabilidade e da honestidade.

A caçula, levada por sentimentos muito materialistas, preocupa-se muito com a diversão presente. Por sintonia, agrupou-se a outras amigas que também pensam assim, e troca o estudo pelos passeios e namorados. Como mãe, faltou-me ensinar-lhe que a vida verdadeira não é somente essa que vemos, e que colheremos amanhã o que semeamos hoje.

E finalmente, vovô, meu corpo reclama – e traduz em doenças – toda a minha angústia e covardia, por tentar tampar o sol com a peneira, por não cumprir bem o meu papel de esposa e mãe, a troco de não me indispor com meus familiares. Vejo os erros, e não falo para não criar discussões, embora, como esposa e mãe, esse fosse o meu papel. E com tudo isso, sofro”.

Esse sim seria um depoimento mais sincero e imparcial. Contudo, a maioria de nós ainda encontra dificuldades em enxergar sobre outra ótica senão com os óculos do ego. E, via de regra, a culpa recai sobre os outros e sobre qualquer coisa de cunho espiritual, de forma que o responsável real possa ser ocultado.

Muito bem: no caso narrado acima, vimos que a senhora em questão tinha muito mais culpa de seu sofrimento do que inicialmente supunha. Mas e quando há realmente algum trabalho de magia, alguma mentalização negativa ou alguma influência espiritual? Será que nesses casos estamos livres de qualquer grau de culpa? Na verdade, não! E nesse ponto, há duas situações a serem analisadas:

A primeira é que no mundo espiritual, tudo funciona por atração e repulsão energética. Atraem-se os afins, e repelem-se os não semelhantes. Não há outra forma! Não há como ser diferente, pois as energias e os espíritos só podem atuar sobre aquilo com que tem sintonia, ou seja, que vibre na mesma freqüência.

O ponto de maior importância em qualquer trabalho feito, é a concentração de quem faz, que pode ser encarnado ou não. Através de sua concentração – ou mentalização – as energias ali acumuladas são enviadas para o endereço vibratório desejado – a vítima. Ao encontrá-la, tais energias só conseguirão atingir sua aura - e causar os malefícios programados - se as vibrações desta forem semelhantes à emanação energética do mentalizador. Se não forem, as energias enviadas retornarão pelo mesmo caminho, e a pessoa endereçada nada sofrerá. Alguém consegue imaginar Chico Xavier, João Paulo II ou o Dalai Lama sofrendo por “trabalho feito” ? Ou seja, para QUALQUER trabalho espiritual - seja para o bem ou para o mal - conseguir atingir uma pessoa, é necessário que ela vibre na mesma sintonia da mente que o originou. Pensamentos elevados atrairão para si energias positivas, e repelirão cargas maléficas. Pensamentos de baixo nível vibratório atrairão para si energias negativas e repelirão bons fluidos.

O grande problema é que a maioria de nós não tem consciência de que vez por outra todos vibramos em sintonias inferiores, secundados por paixões, preocupações, irritações e coisas do dia-a-dia que nos desviam de bons pensamentos e nos tornam vulneráveis a ataques negativos. Aí está o verdadeiro sentido da máxima “ORAI E VIGIAI”, ensinada pelo Cristo. É preciso que mantenhamos nosso espírito fortalecido através da prática espiritual (orai), mas também é importante que vigiemos os nossos pensamentos para não nos tornarmos vítimas de nós mesmos e, em seguida, de energias negativas e pessoas que nos querem mal.

O segundo ponto a ser analisado na questão do “trabalho feito” pode também ser estendido a qualquer coisa negativa que nos aconteça, seja ela espiritual ou não: um assalto, uma demissão, uma doença... e até mesmo um trabalho feito.

O fato é que temos a impressão de que coisas assim - que independem de nossa vontade - são situações fortuitas e que poderiam ter sido evitadas. Achamos que somos meras vítimas, agentes passivos das situações. E essa impressão é causada pela limitação de nossa visão, que não enxerga além da ilusão da matéria. Tracemos um exemplo:

Cada célula de nosso corpo é única, e desempenha corretamente sua função no organismo. Se pudéssemos conversar com uma delas, talvez descobríssemos que ela não tem consciência das bilhões de outras células que compõem o corpo humano. Na verdade, são bilhões de células que compõem o UNO, embora não saibam disso. Se uma dessas células adoece e deixa de cumprir seu papel fisiológico, células do mesmo organismo a combatem, para que a harmonia corporal seja restabelecida. A célula atacada, sem saber de sua importância para nossa fisiologia, pode, nesse momento, achar que está sofrendo uma injustiça, com um ataque que independe de sua vontade, quando na verdade, é apenas o UNO tentando manter a harmonia e o equilíbrio.

Cada um de nós é como uma célula dentro do TODO. Também compomos um “UNO”, regido por leis e pleno de atividade. Cada vez que – com nossas ações ou omissões – tendemos a romper a harmonia do TODO, alguma situação acontece para que tendamos a restabelecê-la, embora, como a célula orgânica, tenhamos apenas a impressão de que estamos sendo atacados por situações fortuitas, alheias a nossa vontade.

O assalto, a doença, a demissão e o trabalho feito, embora os classifiquemos como umas dessas situações, possuem razão para acontecer em nossa vida, pois NINGUÉM TEM MAIS E NEM MENOS DO QUE MERECE. Se assim não fosse, Deus não seria justo e imparcial. Há um ditado que diz: “A cada um, segundo suas obras”. Ou seja, tudo pelo que passamos possui uma explicação e uma causa pregressa.

“Se eu tinha que ser assaltado, então o assaltante não tem culpa?”, pode alguém perguntar. E a resposta é a seguinte: esse assaltante foi a ferramenta que o TODO – o corpo que nós, enquanto células ajudamos a compor – encontrou para nos trazer ao caminho harmônico outra vez, nos ensinando, talvez, o desapego ou a impermanência da matéria. Mas isso não quer dizer que ele – o assaltante -, por sua vez também não sofrerá as conseqüências de seus atos. Sim, ele foi utilizado como ferramenta naquele momento porque estava em condição evolutiva cuja moral possibilitava essa atitude, mas também terá que ser corrigido a seu tempo, e outro, em condição moral inferior será a sua ferramenta de correção.

“E isso não acaba nunca?” Não. A cada instante estão sendo criados espíritos em condição simples e ignorante, cuja moral, ainda deficiente, causará tristezas e desventuras e que, mais tarde, deverão ser elucidados e redirecionados no caminho do bem. Taí a explicação para uma outra máxima do Cristo: “Que venha o escândalo porque ele é preciso, mas ai daquele por quem venha”, o que significa que, coisas ruins devem acontecer porque são necessárias à nossa re-harmonização, mas ai daquele por quem essa “coisa ruim” venha, pois ele, por sua vez, também terá que ser reeducado.

Nesse mesmo sentido, quando há realmente um trabalho feito, temos apenas a impressão que o culpado é o nosso vizinho que o fez. Nosso vizinho está apenas sendo uma ferramenta do TODO para nos ensinar alguma coisa, porque a sua condição moral – que não se importa em fazer o mal – permite que assim o seja. Se não fosse esse vizinho, a corrigenda viria de outra forma, mas viria.

Em resumo, se temos problemas que não são causados por “trabalhos feitos”, a responsabilidade do sofrimento é inteiramente nossa. Devemos, nesse caso, rever nossos pensamentos e atitudes, a fim de reformar nosso íntimo e plantar boas sementes, para colhê-las depois.

Havendo “trabalho feito”, devemos procurar a solução e o auxílio espiritual para resolvê-lo, mas cabe-nos lembrar que temos também responsabilidade sobre o mesmo, por permitirmos brechas em nossa sintonia mental e por termos criado alguma ação no passado que causou a reação no presente. Em todos os casos, não adianta acusar Deus, não adianta culpar o vizinho e nem a vida. Deus é justo. A vida é justa. E nosso vizinho é apenas ferramenta da vida para nos ajustar, assim como também somos ferramenta para ajustar outras pessoas. O TODO é pura harmonia, e tudo o que está em desequilíbrio deve ser re-harmonizado. É assim que funciona.

Mudemos nossos padrões mentais e não achemos que tudo o que nos acontece é resultado de alguma coisa espiritual. Problemas espirituais podem acontecer mas, como em tudo na vida, somos nós mesmos os culpados por eles nos atingirem. Só há um responsável pelos nossos passos: nós mesmos. Façamos, portanto, alguma coisa para nos modificarmos. O remédio para tudo é a oração e a vigia. Ocupemos, então, o nosso tempo com a melhor forma de oração, que é o auxílio ao próximo, e vigiemos nossos pensamentos, parando de nos lamentar, traçando objetivos concretos na vida, agindo verdadeiramente e, acima de tudo, buscando o amor fraternal para entendermos que TODOS SOMOS UM.

MENSAGEM DE PAI JOÃO DE ANGOLA

 


Pode ser uma imagem de 1 pessoa e texto que diz "Adorei as Almas"Demorou muito tempo, muito tempo mesmo para poder me engajar nestas falanges de trabalho desta religião tão nova na esfera humana. Demorou sim, para eu estar apto a ouvir e não julgar, para não agir como um executor da Lei cego, cego pelo meu radicalismo, demorou muito para eu entender que no livre arbitrio dos encarnados não se pode interferir, e que tudo tem dois lados, nunca existe um lado só da história. Bem comecei devagarinho, incorporar para benzimento de crianças, para ouvir os problemas de muitos e aconselhar de forma correta, não tomando para mim suas dores, mas sendo imparcial, tendo o cuidado de pedir um pequeno tempo para correr gira e ir atrás do outro lado da questão, tentando influenciar sempre para o bem os dois lados, tudo

tudo espiritualmente mas deixando para todos o livre arbitrio de escolha. Nossa vocês não imaginam como foi difícil, agarrava-me a minha fé e aos sábios conselhos dos caboclos de Ogum, quantas vezes não vi e vejo filhos que vêm aos meus pés e exigem que eu realize suas vinganças, quantas vezes sem dizer diretamente que não faria, eu os ouvia em silêncio, pegava o nome do desafeto, eles pensavam que eu ia realizar a tão almejada vingança, eu ia até o desafeto estudar o seu estado espiritual e tentar reaproximar os dois. Quantas vezes não se demoviam da idéia de vingança e não mais me procuravam, dizendo ao povo que eu não tinha força, que forte era esse ou aquele de algum centro que se intitulava de Umbanda, mas na verdade além do nome que usavam nada tinham de umbanda nem os espíritos que ali incorporavam. Sim quantas vezes chorei e as lágrimas rolaram de meus olhos, desencarnei mas continuei sendo um velho bobo, que como antes queria consertar o mundo, sempre errei quando encarnado devido ao meu emocional que não sabia conter. Ser colocado no tronco era fácil, apanhar não me importava, era consequência de não seguir as normas dos brancos, isto eu entendia, quem ali estava que seguisse as ordens dos brancos pois eles deixavam bem claro, o castigo viria, ser escravo dócil era não trazer para si mesmo a ira deles, a pena já muito bem avisada que sofreria quem fizesse os abusos. Agora ver no tronco os meus irmãos de cor, mesmo sabendo que eles haviam feito como eu, desobedecido normas, ah eu não aguentava, gritava, chorava, implorava, que fosse dado a mim o castigo, e algumas vezes apanhei junto com eles. O que não diminuía a dor de vê-los sofrer, mas eu me achava responsável por todos, tinham muita confiança em mim, deste pequeninos, eu havia me tornado líder deles. Cheguei à fazenda não contava com vinte anos, trazido diretamente do navio negreiro, logo os que ali estavam perceberam o meu gênio que não era nada fácil, pois se era bom também fazia valer a ordem entre meus irmãos. Nunca com violência, era na palavra e não sei porque até hoje, eles me ouviam. Desta forma quando alguém burlava as leis dos brancos, eu de certa forma me sentia culpado, eu os havia ensinado que a melhor forma de viver era a resignação, injusto foram nossos irmãos africanos que nos traíram, aprisionando-nos para nos venderem para os navios. Os brancos apenas nos compravam, eu sabia que havia algumas fazendas onde o tratamento era mais humano, os castigos não eram cruéis, os negros que davam problemas eles simplesmente vendiam, não tinha coragem de aplicar castigos cruéis, mas livravam-se do problema, e eu achava estes irmãos muito burros, se eles soubessem o tratamento dado na maioria das fazendas jamais se atreveriam a fazer nada que contrariasse os seus senhores. Já na fazenda que eu estava não, o tratamento era de humano para animal, apenas a comida era boa, mas porque o patrão havia perdido muitos negros que enfraquecidos ficaram doentes e rapidamente morriam, era mal negócio não alimentá-los bem. Morri no tronco, já estava bastante velho, dias de pão e água antes da surra, e o capataz queria mesmo se livrar de mim, eu controlava meus irmãos, mas ultimamente os mais jovens não me ouviam, começaram a fugir, para serem pegos logo depois, várias fugas foram tentadas, eu sempre tentava impedir as surras, e na última delas em minha vida eu ao ver que o feitor estava batendo em um irmão já desmaiado, em cima das carnes vivas, eu dei um salto e agarrei o chicote, ainda por cima falei que eu tinha programado a fuga. Puseram-me a pão e água e resolveram cortar o mal pela raiz, fizeram comigo o que estavam fazendo com o rapaz, rapidamente desencarnei, mãos generosas me acolheram no mundo espiritual, e assombrado vi que essas mãos eram tão brancas, tão alvas, e me dizia,: Meu filho amado, como demoraste para voltar, mas prometi te esperar. Na hora não entendi, depois soube era minha mãezinha de outra vida, que assistiu minha morte precoce, aos trinta anos. Então entendi, não era injusto o que sofria, aquele mesmo feitor que tanto ódio tinha de mim, era um dos que foram vítimas de minha tirania, pois apesar de ser bom, ao saber que meu pai falecera pelas mãos de alguns negros, não me preocupei em saber a verdade, fui até a senzala e não pensei duas vezes em matar quatro negros, quatro irmãos, mas que na verdade eram inocentes, pois fora o feitor de nossa fazenda que tinha assassinado meu pobre pai. Dois me perdoaram e estavam comigo na fazenda como escravos, um ainda encontrava-se nas trevas pois o ódio tomara conta de seu coração e por isso se ligou a seres poderosos das Trevas, e o outro era o feitor, que haveria de se tornar amigo e ajudar os escravos da fazenda, no entanto quando colocado em posição inversa da outra encarnação deixou-se dominar pelo orgulho e se achou superior a eles. Bem por isso eu tanto defendia a todos, tinha gravado na minha consciência a injustiça praticada na outra vida, desejara me redimir, e assim foi feito, certo que minha companheira muito me ajudou, como me ouvia e me consolava, era ela a mãe daqueles quatro rapazes. Hoje ela trabalha aqui nesta religião bendita, e eu deixo isto registrado aqui, para que entendam de uma vez por todas que jamais devemos julgar, jamais devemos permitir que o ódio entre em nossos corações, que existem mais mistérios do que qualquer ser vivente possa imaginar. A felicidade deste nego hoje é perceber que devagar, devagarinho a nossa Umbanda começa a ser vista como uma religião, que alguns filhos já entendem que ela é para e evolução espiritual de cada um, que ela não foi idealizada para realizar trabalhos, mas sim para desmanchar, que todos devem abrir os ouvidos para as verdades, os ensinamentos passados, e que o livre arbitrio de cada um deve ser respeitado. Agora já falei demais, aliás outro defeito meu, vou pegar meu banquinho e ir para Angola, buscar meus irmãos para os trabalhos da noite, em uma falange sempre tem o espírito que a iniciou, que raramente incorpora, e este espírito comanda setenta e sete falanges, formando um triângulo perfeito, todos durante o tempo que estão trabalhando incorporam não só o nome como os mistérios daquele espírito que se somam aos seus, pois nada é desperdiçado. He, he, já falei demais, é melhor eu me ir, mas procurem dentro do templo de Umbanda que frequentam, pedir para que os guias venham de vez em quanto só para instrui-los, existe muitos ensinamentos que podem ser abertos para os encarnados. Que Oxalá os abençoe, ditado por Pai João de Angola psicografado por Luconi

domingo, 23 de maio de 2021

VOVÓ MARIA INGRATIDÃO

 


Pode ser uma imagem de 1 pessoaA ingratidão é um dos frutos mais imediatos do egoísmo; revolta sempre os corações honestos.”

Vovó Maria fumegava seu pito e batia seu pé ao som da curimba enquanto observava o terreiro, onde os cambonos movimentavam-se atendendo aos pretos velhos e aos consulentes.

Mandingueira, acostumada a enfrentar de tudo um pouco nos trabalhos de magia, sabia perfeitamente como o mal agia tentando disseminar o esforço do bem.
Sob variadas formas, as trevas vagavam por ali também.

Alguns em busca de socorro; outros, mal-intencionados, debochavam dos trabalhadores da luz. Muitos chegavam grudados no corpo das pessoas, qual parasitas sugando sua vitalidade.

Outros, por sobre seus ombros, arqueando e causando dores nos hospedeiros, ou amarrados nos tornozelos, arrastavam-se com gemidos de dor. Fora os tantos que eram barrados pela guarda do local, ainda na porta do terreiro e que, lá de fora, esbravejavam palavrões.

Da mesma forma, o movimento dos exus e outros falangeiros se fazia intenso no lado astral do ambiente, para que, dentro do merecimento de cada espírito, pudessem ser encaminhados.

Uma senhora com ares de madame se aproximou da Preta Velha para receber atendimento. Vinha arrastando uma perna que mantinha enfaixada.

– Saravá, filha – falou Vovó Maria , enquanto desinfetava o campo magnético da mulher com um galho verde, além de soprar a fumaça do palheiro em direção ao seu abdome, o que fez com que a mulher demonstrasse nojo em sua fisionomia.
Fingindo ignorar, a Preta Velha, cantarolando, continuou a sua limpeza. Riscando um ponto com sua pemba no chão do terreiro, pediu que a mulher colocasse sobre ele a perna ferida.

“Será que não vai pedir o que tenho?”, pensou a mulher, já arrependida por estar ali naquele lugar desagradável. “Vou sair daqui impregnada por estes cheiros!”

Vovó Maria sorriu, pois captara o pensamento da mulher, mas preferiu ignorar tudo isso. O que a mulher não sabia era a gravidade real do seu caso, ou seja, aquilo que não aparecia no físico. Se ela pudesse ver o que estava causando a dor e o inchaço na perna, aí sim, certamente ficaria muito enojada. Na contraparte energética, abundavam larvas que se abasteciam da vitalidade do que já era uma enorme ferida e que breve irromperia também no físico.

Além disso, uma entidade espiritual, em quase total deformação, mantinha-se algemada à sua perna, nutrindo, assim, essas larvas astrais. Para qualquer neófito, aquilo mais parecia um cadáver retirado da tumba mortal, inclusive pelo mau cheiro que exalava.
Com a destreza de um mago, a Preta Velha sabia como desvincular e transmutar toda essa parafernália de energias densas, libertando e socorrendo a entidade escravizada a ela.

Feitos os devidos “curativos” no corpo energético da mulher, Vovó Maria, que à visão dos encarnados não fez mais que um benzimento com ervas e algumas baforadas de palheiro, dirigiu-se agora com voz firme à consulente:
– Preta Velha até aqui ouviu calada o que a filha pensou a respeito do seu trabalho. Agora preciso abrir minhas tramelas e puxar sua orelha.

Ouvindo isso, a mulher afastou-se um pouco da entidade, assustada com a possibilidade de que ela viesse mesmo a lhe puxar a orelha.

“Escutou o que pensei? Ah, essa é boa. Ela está blefando comigo.”, pensou novamente a mulher.

– Se a madame não acredita em nosso trabalho, por que veio aqui buscar ajuda? Filha, não estamos aqui enganando ninguém. Procuramos fazer o que é possível, dentro do merecimento de cada um.

– É que me recomendaram vir me benzer, mas eu não gosto muito dessas coisas…

– …e só veio porque está desesperada de dor e a medicina não lhe deu alento, não foi filha? – complementou a Preta Velha.

– Os médicos querem drenar a perna e eu fiquei com medo, pois nos exames não aparece nada, mas a dor estava insuportável.

– Estava? Por quê, a dor já acalmou?

– É, agora acalmou, parece que minha perna está amortecida.

– E está mesmo, eu fiz um curativo.

A mulher, olhando a perna e não vendo curativo nenhum, já estava pronta para emitir um pensamento de desconfiança quando a Preta Velha interferiu:

– Vá para sua casa, filha, e amanhã bem cedo colha uma rosa do seu jardim, ainda com orvalho, e lave a sua perna com ela, na água corrente. Ao meio-dia o inchaço vai sumir e sua perna estará curada.

Não ousando mais desconfiar, ela agradeceu e já estava saindo quando a Preta Velha a chamou e disse:

– Não se esqueça de pagar a promessa que fez pra Sinhá Maria, antes dela morrer…
Arregalando os olhos, a mulher quase enfartou e tratou de sair daquele lugar imediatamente.

O cambono, que a tudo assistia calado, não agüentando a curiosidade perguntou que promessa foi essa.

– Meu menino, o que nós escondemos dos homens fica gravado no mundo dos espíritos. Essa filha, herdeira de um carma bastante pesado por ter sido dona de escravos em vida passada e, principalmente, por tê-los ferido a ferro e fogo, imprimindo sua marca na panturrilha dos negros, recebeu nesta encarnação, como sua fiel cozinheira, uma negra chamada Sinhá Maria.

Esse espírito mantinha laços de carinho profundo pela madame desde o tempo da escravidão, quando foi sua “Bá” e, por isso, única poupada de suas maldades. Nessa encarnação, juntaram-se novamente no intuito de que a bondosa negra pudesse despertar na mulher um pouco de humildade, para que esta tivesse a oportunidade de ressarcir os débitos, diante da necessidade que surgiria de auxiliar alguém envolvido na trama cármica.

Sinhá Maria, acometida de deficiência respiratória, antes de desencarnar solicitou à sua patroa que, na sua falta, assistisse seu esposo, que era paraplégico, faltando-lhe as duas pernas.

Deixou para isso todas as suas economias de anos a fio de trabalho e só lhe pediu que mantivesse com isso a alimentação e os medicamentos. Mas na primeira vez que ela foi até a favela onde morava o homem, desistiu da ajuda, pois aquele não era o seu “palco”.

Tratou logo de ajustar uma vizinha do barraco, dando-lhe todo o dinheiro que Sinhá havia deixado, com a promessa de cuidar do pobre homem. Não é preciso dizer que rumo tomaram as economias da pobre negra; em pouco tempo, para evitar que ele morresse à míngua, a Assistência Social o internou em asilo público. Lá ele aguarda sua amada para buscá-lo, tirando-o do sofrimento do corpo físico. Nenhuma visita, nenhum cuidado especial. A madame se havia “esquecido” da promessa. Eu só fiz lembrá-la para que não tenha que voltar aqui com as duas pernas inválidas. A Lei só nos cobra o que é de direito, mas ela é infalível. Quanto mais atrasamos o pagamento de nossas dívidas, maiores elas ficam. Por isso, camboninho, negra velha sempre diz para os filhos que a caridade é moeda valiosa que todos possuímos, mas que poucos de nós usam. Se não acordamos sozinhos, na hora exata a vida liga o “desperta-dor” e, às vezes, acordamos assustados com a barulheira que ele faz… eh, eh, eh…

Entendeu, meu menino?

– Sim, minha mãe. Lembrei que tenho de visitar meu avô que está no asilo…
Sorrindo e balançando a cabeça a bondosa Preta Velha falou com seus botões:

– Nega véia matô dois coelhos com uma cajadada só… eh, eh…

E, batendo o pé no chão, fumando seu pito e cantarolando, prosseguiu ela, socorrendo e curando até que, junto aos demais, voltou para as bandas de Aruanda.

Capítulo 4 do Livro Causos de Umbanda – Volume 2