quinta-feira, 15 de março de 2018

PRETA VELHA MÃE MARIA CONGA



Nasceu no Brasil em sua última encarnação, filha de escravos vindos do Congo e criada na religião católica.

Frequentava as missas todos os domingos e à noite, na senzala, participava dos rituais de magia do antigo Congo.

Tinha livre trânsito na fazenda onde morava e não chegou a ser chicoteada, pois era querida da sinhá e do sinhô, a ponto de ser ama de leite de seus filhos, porém sem deixar de ser escrava como todos os outros. Por isso, teve uma vida de renúncia, sempre servindo e muitas vezes tendo seu corpo violado, sendo obrigada a procriar e gerar filhos que eram tirados de seus braços muito precocemente.

Seu sofrimento também era o de assistir a morte de seus irmãos negros em seus braços, sendo que muitos deles também haviam nascidos por suas mãos de parteira. Essas mortes eram provocadas pelas surras diárias com cortantes chibatadas, ordenadas pelo feitor.

Por ser exímia conhecedora das ervas, curava as feridas dos negros torturados pelo chicote e também fazia simpatias e benzimentos que aprendera com as escravas mais antigas.

Porém, não se enganem com a aparência de sua incorporação de Preta Velha, septuagenária, um corpo que demonstra o cansaço e a experiência que somente os longos anos vividos na carne podem oferecer. Isso é apenas uma forma de demonstrar a todos a sua humildade e simplicidade. 

Mãe Maria Conga não trabalha só nos terreiros de Umbanda, onde é muito conhecida e se apresenta como uma Preta Velha, ela também trabalha nos Centros Kardecistas, apresentando-se como freira e especialista em psicologia, realizando trabalhos de psicografia.

Numa encarnação anterior, nasceu na Idade Média, onde foi uma superiora de convento em um hospital católico na Espanha do século XIII, denominando-se Maria de Las Mercês.

Os espíritos moldam seus corpos astrais de acordo com as necessidades da caridade a ser praticada, por isso muitos médicos considerados muito elevados e evoluídos no meio dos homens, trabalham anonimamente como humildes Pretos Velhos na Umbanda.

Ela não se apresenta como uma Preta Velha nas mesas Kardecistas, pois seu comprometimento com essa configuração astral é na Umbanda e tais manifestações estão de acordo com os homens e suas consciências. 

Fonte: ceucaboclajurema.org

PRETA VELHA VOVÓ CAMBINDA



Vovó Cambinda é uma Preta Velha Amada por todos que amam a Umbanda. Todos tem nela um exemplo de amor e caridade, pois ela própria é assim.

Com seu jeito humilde e dócil, ela conquista a confiança de todos, fazendo assim que seus consulentes abram o coração de uma forma extrema, sem receios, sem vergonha de se expressar, sem medo, apenas com o dar e receber um carinho grandioso, como se fosse um neto ao lado de sua avó preferida.

Essa vovó sempre atenta a todas as palavras, escuta tudo calmamente, fazendo com que todos os "grandiosos problemas" se pareçam apenas minusculos fatos aos olhos de otimismo de nossa amada Preta Velha, e passando assim aos seus amados "netos e netas", para que eles reajam com mais força e mais fé a qualquer obstáculo na caminhada que as vezes pode parecer tão difícil.

A senhora Cambinda é uma das Pretas Velhas mais conhecidas na história da Umbanda. Em diversos Terreiros podemos encontrar uma velha com o mesmo nome, pois como a nossa Velha Cambinda fora reconhecida e respeitada por várias gerações de negros pelos seus atos de caridade, muitos desses negros colocavam o nome de Cambinda em seus filhos para homenagear a nossa amada Vovó Cambinda.

Vamos falar um pouco dessa Preta Velha, e saber como foi que ela alcançou tamanho respeito.

Cambinda era uma menina ainda quando fora tirada da Guiné, sua terra natal. Foi trazida para o Brasil nos meados do século XVI em navios negreiros, que eram conhecidos como "Tumbeiros", e tinha esse nome pois praticamente a metade dos negros que nele vinham, morriam antes do findar da viagem.

Cambinda e seus pais vieram em um desses navios, e por meses viveram amontoados nos porões imundos, repleto de cadáveres e negros adoentados, sem comida e água suficiente a todos.

A Mãe da menina Cambinda, com seu jeito carinhoso, doce e caridoso, abraçava a menina e lhe falava baixinho:

"Não tenha medo, logo logo tudo isso vai terminar. E eu prometo estar sempre a seu lado quando precisar."

E com essas palavras a mãe da menina a ensinava clamar a Zambi (Deus) a Oxalá e a todos os Orixás, pedindo sempre força e fé para que assim pudesse ajudar os irmãos negros adoentados na dura jornada de luta pela sobrevivência.

E assim a menina Cambinda rezava, clamava e pedia forças a Zambi, não só para os irmãos negros, mas por ela própria, pois mesmo sendo uma criança, e sem entender muito os acontecimentos, sentia que as coisas eram ruins naquele momento, mas tinha a dor e sentimento que ainda o pior estaria por vir.

Havia muitas crianças no porão do navio que estava a doce Cambinda, e foi determinado pelos traficantes de negros que seria preservados os meninos e homens adultos não adoentados, pois esses sim valeriam muito dinheiro aos serem vendidos na chegada ao Brasil.

Mulheres e meninas não adoentadas seriam alimentadas, mas apenas uma vez ao dia e o mínimo possível, e o restante que se encontravam adoentados, seriam avaliados e se os males fossem de uma forma mais intensa, esses seriam lançados ao mar, ainda vivos.

Os cadáveres já em decomposição foram retirados dos porões e lançados ao mar.

A menina Cambinda rezava aos Orixás clamando que os espíritos de seus irmãos fossem levados ao encontro de Zambi. A cada corpo retirado ela se ajoelhava rezando com seus olhos lacrimejados, e olhando a sua mãe que desesperadamente tentava esconder a angústia por poder ser elas as próximas vítimas das maldades dos traficantes de negros. A menina a acalentava e dizia baixinho para que ela tivesse muita fé, pois Zambi não ia deixá-las morrer na viagem, pois elas teriam muitas caridades a fazer ao seu povo quando chegassem ao seu destino. 

E ela dizia isso convicta, pois por muitas noites em que dormia no amontoar dos porões fétidos, a menina sonhava com uma linda negra que lhe abraçava carinhosamente, lhe dizia que ela estaria sempre protegida pela força das águas do mar, e que a cada onda que passasse levaria todas as dores, tristezas e angústias do seu corpo e de seu coração, bastaria que ela tivesse fé nos Orixás e nas forças da natureza.

E Cambinda assim o fez, acreditando fielmente em seus sonhos, e aprendendo dezenas de rezas e benzeduras, assim como fazer a cura em adoentados do corpo e espírito através dos preparos com ervas, peixes, água, algas, entre tantas outras coisas que lhe fora ensinada através de seus sonhos de luz vindos por intermédio da linda negra que se fazia brilhar como os raios do Sol.

A menina Cambinda, escondida da tripulação do navio negreiro, fazia suas benzeduras nos negros doentes, se utilizava de tudo que podia para acalentar as dores de seus irmãos, e com isso foi obtendo grandes resultados.

Sua mãe bastante impressionada com os atos da filha, decidiu então auxiliar em tudo que poderia. E assim as duas trabalhavam incansavelmente por dias e noites a fio para que os seus irmãos negros tivessem mais uma chance de sobreviver sem as ameaças dos traficantes de escravos.

Chegando em terra firme, Cambinda foi levada a uma fazenda de cana de açúcar e café no interior do Nordeste do Brasil juntamente com seus pais e centenas de outros negros.

Nessa fazenda ela viveu toda sua vida, e também nessa fazenda que ela conheceu uma negra velha que por gostar muito da menina prometeu que a ensinaria tudo sobre rezas, benzeduras, ervas, chás, esfregaços e limpezas do corpo e da alma de espíritos sem luz, que aprendera em seus 90 anos de idade.

E assim foi feito, os anos passavam, e Cambinda, que já estava uma mulher feita, aprendera tudo que lhe foi ensinado pela negra já centenária.

Com os ensinamentos da negra, e com todas as lições que Cambinda aprendeu em sonhos, ela se transformou em uma das maiores benzedeiras da região, além de encaminhadora, de parteira, de curandeira de diversos males, tanto do corpo físico quanto do espírito.

Certa vez, Cambinda já uma senhora madura, foi chamada para fazer o parto da esposa do coronel fazendeiro, da mesma fazenda na qual ela era escravizada. Ao chegar aos aposentos da sinhá ela observou que tinha algo de errado naquela gestação. Se ajoelhou diante da cama na qual se encontrava a mulher grávida, e rezou profundamente, pedindo a Mãe Iemanjá que lhe mostrasse qual era o mal que estava ocorrendo no ventre da sua sinhá.

E assim de olhos fechados, compenetrada em seus pensamentos, Cambinda se depara com a imagem da linda Negra que ela tanto conhecia. E a bela negra diz a Cambinda que estaria na hora de realizar o parto, mas das duas vidas que estavam no ventre da sinhá, apenas uma sobreviveria, e que a partir do dia do nascimento da criança que ficaria encarnada, deveria ser contados 7 dias, e nesse sétimo dia deveria ser feito uma limpeza de retirada de espíritos malignos e sem luz, pois eles viriam buscar a alma do recém-nascido, assim como fizeram com a criança que já ia sair do ventre da mãe sem vida.

Cambinda chorou, todos olharam para ela sem entender o motivo das lágrimas.

O coronel a puxa pelo braço com violência. Grita, quer saber o que está acontecendo.

A negra abaixa a cabeça e num sussurro diz ao coronel que no ventre da sinhá há duas crianças, uma vai sobreviver, a outra já está desencarnada.

O coronel desesperado manda ela fazer o parto, e diz que se algo de ruim acontecer com as crianças ou com a sinhá, a negra irá pagar com a própria vida.

A negra Cambinda faz o parto, primeiro nasce uma menina, e logo em seguida sai o corpo inerte de um menino. Ela o retira e entrega ao coronel, dizendo que o menino já estava sem vida.

O coronel a olha com um grande ódio, e enquanto as mucamas fazem a limpeza do ambiente e da menina recém nascida, a sinhá chora a morte de seu menino, que se encontra nos braços do coronel.

Ele pega a negra Cambinda pelo braço e a arrasta para fora dos aposentos da sinhá, a leva até as mãos de um feitor e ordena que a leve ao tronco e a deixe lá até morrer, mas antes a açoite sem dó nem piedade.

Cambinda apenas olha o coronel, como se entendesse o seu ódio. E antes de ser levada diz ao coronel:

"Espíritos da escuridão levaram a alma de seu menino. Esses espíritos são frutos de seu ódio contra os negros que o senhor escraviza como animais. Minha Mãe Iemanjá, na sua proteção materna, já tinha me mostrado que uma das crianças estaria desencarnada no ventre da sinhá, e que deveria ser contado sete dias após o nascimento, pois no sétimo dia esses espíritos da escuridão voltariam para levar a alma da outra criança. Peço que não deixe seu ódio fortalecer esses espíritos, pois assim sua filha poderá ser salva das garras malignas da morte e desses obsessores da escuridão."

O coronel sem dar atenção a negra, manda a levarem ao tronco e obedecerem as ordens dadas.

E assim foi feito.

Já no tronco, a negra foi açoitada, seu corpo ardia, feridas abriam e ela chorava baixinho.

Sua mãe, que agora já estava uma velha negra quase sem forças, clamava aos feitores ajoelhada a seus pés, por clemência a sua filha. O feitor manda retirar a velha negra dali, que fora arrastada e jogada na senzala.

Cambinda de olhos fechados, rezava pedindo forças aos Orixás. E em resposta a voz da negra que por tantas vezes apareceu em seus sonhos lhe dizendo para que ela não fraquejasse sua fé. Teria que aguentar a dor, o sofrimento e a humilhação, mas não por ela própria, não por sua vida, mas para que pudesse no sétimo dia estar com forças para salvar o espírito de uma criança inocente.

E assim foram se passando os dias, Cambinda resistia fortemente o tronco, as chibatadas, as noites frias, a falta de comida e bebida.

E enfim chegou o sétimo dia.

Nos aposentos do coronel com a sinhá, se encontrava a menina recém nascida. Tinha sete dias de vida. E inocentemente dormia sem saber que estava sendo observada por espíritos da escuridão.

O coronel se preparava para mais um dia de comando de sua fazenda, quando a sinhá se levanta da cama, e sem dizer nada anda até ele. O olha no fundo dos olhos, abre um pequeno sorriso, e o ataca numa ferocidade devastadora.

Com uma voz rouca diz que chegou a hora dele perder mais um pedaço de sua alma. Que já tinha levado seu filho e agora veio para buscar a menina. E com isso deu um salto indo para junto da criança.

O coronel assustado avança para junto da esposa na intenção de a deter, e assim salvar a sua filha. Num segundo de reflexão ele se lembra das palavras da negra Cambinda, lembrando-se também que estava fazendo exatamente sete dias do nascimento de sua filha.

Ele tentando controlar a esposa, que estava obsediada, tomada por uma força descomunal, um espírito negro que o olhava com ódio, grunhindo e tentando a todo custo atacar a pequena recém nascida.

O coronel agarra com todas as suas forças o corpo da mulher, mas ela com uma força grandiosa o joga contra a parede. Ele mesmo atordoado volta em sua tentativa de conter a sinhá. Grita por socorro, pede ajuda aos negros que trabalhavam dentro da casa grande.

Ao ouvir seus gritos desesperados, os negros correm em direção dos aposentos do casal. Uma velha negra adentra ao cômodo vendo aquela cena demoníaca, enquanto o coronel agarrado ao corpo da sinhá, pede desesperadamente que fossem buscar a negra Cambinda, que ainda se encontrava presa ao tronco.

E assim foi feito.

Ao chegarem com a negra, que se encontrava com suas vestes rasgadas, seu corpo surrado, feridas abertas, o sangue manchando seu corpo e os trapos que vestia, Cambinda se pôs de joelhos em oração, clamando a sua Mãe Iemanjá que lhe mostrasse o caminho para vencer tal força daquele espírito da escuridão.

De olhos cerrados, ela vê a imagem da negra Mãe, sua voz serena, seu jeito amável e sua luz entram na mente da velha Cambinda, lhe dizendo:

"Filha amada, chegou a hora de mostrar tudo que aprendera em todos esses anos. Vá até fora dessa casa, lá você vai pegar 7 ervas que sua intuição vai lhe mostrar, dessas 7 ervas traga apenas 3, e dessas 3 apenas uma vai ser a que poderá salvar a vida dessa criança das garras desse espírito sem luz. Ao retornar aqui, passe essa erva no corpo da pequena. Se for a correta a criança estará salva, caso sua fé for menor que a força desse obsessor, a alma da criança irá para os domínios do reino da escuridão."

E assim ela sai em disparada, enquanto a sinhá era segura pelo coronel e mais 3 negros escravos.

Ela faz o que lhe foi dito, e retorna para os aposentos do coronel. E com uma só erva escolhida na mão, ela se aproxima da menina recém nascida, esfrega a erva nas mãos, e passa por todo corpo da criança. Nesse momento a sinhá se desvincula dos fortes braços dos negros e do coronel e corre em direção a filha. Ela empurra Cambinda a jogando longe e ao chão, e quando se aproxima da criança, seus olhos estão vermelhos de ódio, um ódio maligno, incomum, ela olha para o coronel e num grunhido diz apenas a frase:

"Eu levarei mais essa alma comigo, e graças a sua crueldade que me da forças ninguém poderá vencer-me."

E voltando para a menina novamente dá uma terrível gargalhada que estremece a todos no local.

Mas quando ela ia atacar a menina, foi jogada para trás como se uma força invisível a dominasse. Entre gritos e grunhidos, a mulher desaba ao chão, ficando inerte. No mesmo instante um dos negros que ali se encontrava, absorve toda aquela força maligna, e por entre gritos de ódio parte para cima da criança, mas não consegue chegar perto dela. A erva escolhida pela querida Cambinda a protegia de todos os males da escuridão.

Cambinda, numa ação rápida, pega o restante da erva e passa na cabeça do negro obsediado, que no mesmo momento cai ao chão, da mesma maneira que a sinhá.

A negra abrindo os braços, e com uma quantidade de erva em cada uma das mãos, clama a Oxalá, sua Mãe Iemanjá, todos os Orixás e Entidades de Luz para que lutem junto a ela, dando-lhe forças e fé para vencer aquele mal.

As forças vieram. Um barulho ecoou dentro do quarto, como um grito de dor e desespero. Cadeiras e mesas viraram dentro de toda a casa grande, livros caíam das prateleiras da biblioteca do coronel, taças e garrafas de vinho foram despedaçadas junto as paredes e ao chão.

E a calmaria voltou. Todos se entreolharam um tanto assustados. Cambinda se ajoelha e reza. Agradece a força recebida, agradece a vitória conquistada, agradece pela vida da pequena recém nascida, filha do coronel.

Por entre lágrimas e dores, a sinhá desperta, sem entender o acontecido, da mesma maneira o escravo que também fora obsediado. 

O coronel se ajoelha junto a Velha Cambinda, lhe da um abraço, chora e lhe agradece, pedindo perdão por tudo, por toda a dor e desespero que ele a fez passar por 7 dias de amargura.

Ela com olhar cansado, apenas diz a seu senhor:

"As forças do mal buscam ódio, maledicência, rancor, nos corações de quem distribui a dor. Mas essa dor distribuída um dia fará com que dores maiores possam voltar a quem está fortalecendo o mal. Senhor coronel, demonstre seu respeito e agradecimento por nosso povo negro, assim como os Orixás demonstraram um grande amor pelo senhor, ajudando a salvar sua filha. Lembre-se, não foi apenas um espírito maligno da escuridão que levou seu filho, o senhor próprio o deu forças para isso. O mal só vence se não tivermos o bem no coração."

E assim ela se levantou e caminhou para junto do feitor, dizendo-lhe:

"Cá estou eu, com a força de minha Mãe Iemanjá, pronta para retornar ao meu castigo."

O coronel, mais uma vez, corre para a negra Cambinda pedindo-lhe perdão e dizendo que ela não iria nunca mais ao tronco.

Ela de olhos baixos, voz fraca, diz baixinho ao coronel:

"Sou uma negra, meu povo é negro. Enquanto meu povo tiver que sofrer nos açoites, no tronco, na falta de respeito, de comida e de cuidados, eu ficarei no tronco, e ficarei lá até meu corpo não aguentar mais, pois nunca seria livre enquanto ver meus irmãos sendo açoitados até a morte enquanto eu, que não sou nada nem melhor que eles fico sem o castigo merecido aos olhos dos senhores e senhoras de pele branca. O castigo que deveria receber por ser negra."

O coronel de imediato mandou que fossem tirados todos os negros do tronco, que todos os troncos fossem destruídos, que todos os negros fossem cuidados e alimentados descentemente.

A Velha Cambinda viveu na fazenda até seus 90 anos, ela foi a cuidadora de muitos males entre negros e brancos. Foi mucama da pequena sinhá, filha do coronel, que após a primeira filha ainda foi pai de 5 outras crianças entre meninos e meninas, e nunca mais fora atormentado pelo espírito obsessor.

A Vovó Cambinda hoje trabalha caridosamente na Umbanda, auxiliando seus filhos amados, ajudando a curar males, retirar Kiumbas, Eguns e Espíritos Zombeteiros da vida de consulentes que buscam ajuda dessa amada Preta Velha.

Com seu modo amável e sereno ela está sempre pronta a ajudar no que for necessário, dentro do merecimento de cada um.

Fonte: umbandayorima.blogspot.com.br

PRETA VELHA VOVÓ BENEDITA



Vovó Benedita é uma bela negra que foi escravizada nos primórdios de sua infância. Viveu por toda sua vida em uma fazenda na região Sudeste do Brasil. Em sua caminhada na vida terrena teve muitos sofrimentos, mas nenhum deles fez com que a negra Benedita perdesse o que ela tinha de mais lindo, sua fé, sua alegria e coragem de caminhar adiante.

Quando menina ainda ficou sem a proteção de sua mãe, que desencarnou por um forte mal nos pulmões, e como seu pai teria sido vendido para atuar como escravo trabalhador em roças de grãos de café em uma distante fazenda, ela se encontrou só ainda em tenra infância.

Mas na verdade não estava só, pois Oxalá colocou no caminho da menina uma negra que tinha o dom de amar a todos como mãe. Essa negra, já com a idade madura, não se fez de rogada em assumir com um grande amor maternal a pequena menina Benedita.

E com o passar do tempo a negra que protegia a menina passou a ensinar-lhe tudo sobre as crenças, a fé e as magias dos negros africanos, para que assim ela crescesse sem se sentir desprotegida.

O tempo foi passando a menina Benedita já era uma linda moça sorridente, por demais brincalhona e extremamente feliz, mesmo estando na condição de escrava.

A sua protetora, a negra Joaquina, já com uma idade bastante elevada, tinha a jovem Benedita como uma afilhada amada, a ensinava tudo que podia, todas as magias, todas as rezas e benzeduras. E claro que com isso seu apego cresceu bastante.

Na fazenda já havia nascido a sinhazinha filha do coronel cafeicultor, uma bela menina de pele branca como um copo de leite, e foi designado a função a Benedita a ser sua mucama, que cumpriu muito bem essa função desde a tenra infância da bela sinhazinha.

A sinhazinha tinha adoração pela mucama, onde ia a negra deveria estar junto, caso contrário ela reclamava. E com o passar do tempo as duas ficaram inseparáveis, principalmente que junto a elas sempre estava um primo consanguíneo da jovem Benedita, o menino Benedito, negrinho falante, brincalhão e esperto, que junto com sua prima mais velha faziam tantas travessuras, fazendo assim a sinhazinha gargalhar, em uma felicidade extrema.

Sempre observados pela velha Joaquina, os três passeavam alegremente, sorrindo e pulando de um lado para o outro, como se aquele mundinho deles fosse mágico.

Anos e anos se passaram, a sinhazinha, e o negro Benedito cresceram, a negra Benedita envelheceu, mas continuavam as suas aventuras como crianças. Uma amizade grandiosa, uma menina branca e dois negros, juntos como uma família.

A negra Benedita era respeitada e amada dentro da fazenda, seu sorriso, mesmo cansado era encantador, seu modo de demonstrar a felicidade contagiava a todos em volta. O próprio coronel e sua sinhá tinha um carinho enorme pela negra.

Certa vez, ao visitar uma fazenda de um amigo de seu pai, a jovem sinhazinha se encontrava nos aposentos de uma amiga, filha do fazendeiro, quando ao anoitecer tiveram a triste ideia de se aventurarem pelas matas próximas da região, sem avisar aos pais da amiga, ou mesmo levarem uma companhia mais experiente para essa aventura. Saíram as escondidas com um sorriso infantil nos rostos, como se fossem descobrir o mundo lá fora.

Mas as matas tem muitos perigos e mistérios, principalmente ao cair da noite.

Em certo momento, as duas jovens, já adentrando pela floresta, sentem um certo receio, e decidem voltar a segurança dos aposentos da amiga. Contudo a jovem amiga da sinhazinha se espanta com um ruído e diz a sinhazinha que ouviu uma criança chamando seu nome. A sinhazinha diz não ter ouvido nada, e pede para saírem rumo a fazenda. A jovem replica e sem dar ouvidos a sinhazinha se embrenha pelas matas escuras, como se estivesse em transe, e nos seus ouvidos uma voz infantil suplicando ajuda e chamando por seu nome.

A sinhazinha implorava que ela voltasse, que não tinha nada e nem ninguém lhe chamando ou em perigo. Mas a jovem não ouvia mais nada, saia em disparada sem olhar para trás, sem dar atenção a mais nada, sem recear o que poderia vir pela frente.

A jovem sinhazinha sem ter o que fazer, foi atrás da amiga para tentar detê-la, não poderia deixar que ela se perdesse nas matas escuras.

Correndo foi adentrando pela floresta a procura da amiga, parecia ver vultos gargalhando, mas colocou esses fatos como sua imaginação e o grande temor de estar naquele lugar. Apavorada chamava pela amiga, mas nenhuma resposta era obtida.

Nesse mesmo momento, na casa grande, residência da sinhazinha, a negra Benedita estava impaciente, angustiada, extremamente nervosa, como isso não era de seu costume, tentou se acalmar, sem entender o que se passava.

Fechou os olhos, tentava descansar, mas a lembrança da sinhazinha vinha em sua mente todo o tempo.

Se levantou de sua esteira, caminhou até uma pequena janela, olhou para o céu, e rezou firmemente para Zambi, Oxalá e todos os Orixás para que protegessem a sua sinhazinha.

Num ímpeto saiu em disparada indo ao encontro de seu primo e grande amigo, o negro Benedito. Chegando a ele pediu-lhe ajuda para que de alguma forma saísse da fazenda sem que fosse vista. Sem muitas perguntas, o amigo e primo, lhe ajudou dizendo que não entendia o porque ela desejava sair assim, mas ajudaria pela confiança que nela tinha. A negra disse que depois explicaria, mas naquele momento deveria seguir sua intuição e tinha que partir.

De passos apressados ela se foi, como em transe ela seguia caminhos como que se uma força maior a levasse. Chegando até a entrada da floresta, ela sem receio se embrenhou pelas matas escuras. A cada passo que dava seu coração acelerava, sua boca estava seca, não tinha muito controle de seus membros, como que realmente estivesse sendo tomada por uma energia divina.

Em outra parte da floresta, a sinhazinha ainda buscava sua amiga, quando sem que ela esperasse uma sombra, que parecia com a de um homem a chama e diz: "Em busca de sua amiga minha jovem? Me siga que a levarei até ela." E sem esperar resposta da menina sinhá, a sombra entra cada vez mais pelas matas. A Sinhazinha como que encantada segue aquele vulto escuro, indo parar em uma pequena clareira na qual viu sua amiga caída. Seu desespero foi intenso ao ver essa cena, e correu em direção da moça. Surpreendida novamente pelo vulto da escuridão, que saiu do nada, ela se assusta e para, receosa do que poderia acontecer.

A sombra negra vem de encontro a jovem, estende-lhe a mão e diz: "Jovem menina, nesse momento você só tem uma maneira de salvar sua amiga das garras sombrias da morte. E para isso basta você apenas falar com toda sua convicção que aceita entregar seu espírito a mim. Com esses dizeres, prometo-lhe que sairá daqui com segurança e proteção, levando sua amiga. E só vai novamente se reencontrar a mim quando fizer sua passagem dessa vida terrena."

Ao ouvir essas palavras, a jovem sinhazinha lembrou-se das histórias sobre obsessores de almas, espíritos da escuridão que tentavam induzir as pessoas encarnadas a entregarem seus espíritos a escuridão, histórias essas que eram contadas pela negra Joaquina, pela negra Benedita, e claro pelo seu grande amigo, o negro Benedito.

Ao perceber a intenção do obsessor, a jovem sinhá com um grito desesperado, diz não aceitar tal acordo, e que o Deus dos negros ia salvar a ela e sua amiga das garras daquele espírito sem luz.

Diante dessa ação da menina, o vulto negro solta uma enorme e assustadora gargalhada, e diante dos olhos da jovem se transforma em uma descomunal cobra, de tamanho grandioso que nunca o mais valente caçador poderia imaginar.

Antes mesmo que a menina sinhá pudesse se defender, o obsessor em forma da gigantesca cobra, ataca e se enrola no corpo da menina, tentando assim fazer seu esmagamento.

Ela desesperada, sem poder gritar ou qualquer outra ação, se pôs a chorar e mentalmente rezava, as mesmas orações que aprendera com seus amigos negros.

Nesse instante, do meio da mata, surge a negra Benedita, que ao ver aquela cena de desespero, se ajoelha na mãe terra, e roga a todos Orixás pedindo que salvem sua menina branca das garras da morte.

O vento veio fortemente balançando as árvores, o céu se abriu para a saída de uma luz de imensidão grandiosa, essa luz desceu sobre o corpo da negra, ela se levanta com um salto, fica frente a frente com a imensa sucuri ainda enrolada ao corpo da jovem sinhá. E de braços abertos a negra fala palavras e palavras não entendíveis, mas que tinha um grandioso poder sobre toda a floresta. Suas palavras como em oração, foram arrancando toda as energias e forças daquele animal peçonhento, deixando-o enfraquecido de tal forma que fora soltando o corpo da jovem. 

A jovem se solta, mas cai sem sentidos, ficando junto ao corpo de sua amiga, que também se encontrava em um sono profundo.

O raio de luz que antes estava sobre o corpo de Benedita, passa a iluminar a grande sucuri, e com tamanha intensidade que o couro do animal passa a exalar um terrível cheiro de enxofre, e como se estivesse sendo queimado, fumaça negra saía das rachaduras feitas pela intensidade do calor.

Em pouco tempo o obsessor que estava em forma de animal era apenas um pó negro espalhado pelo chão da floresta.

A negra Benedita tenta superar a fraqueza e buscar forças para se aproximar das duas moças. E arrastando seu corpo chegou até elas, observando que a amiga de sua sinhazinha estava apenas com um profundo sono, mas a pobre menina sinhá estava inerte, com partes do corpo dilacerado, ossos partidos, sangue se demonstrando através dos poros.

De um pequeno embornal que trazia em sua cintura, Benedita pegou duas ou três ervas, macerou, fazendo sair o sumo, e dando para a amiga da sinhá tomar, que em poucos segundos desperta do encanto do obsessor.

Em lágrimas Benedita pede ajuda a menina, que ela trague água fresca, pois precisaria para fazer emplastros para serem colocados pelo corpo da sinhazinha.

A jovem obedece sem pensar, saindo em direção de um rio próximo que vira ao passar até aquela clareira. E retorna rapidamente, enquanto a negra buscava mais folhas e raízes da santa mãe floresta, para que assim pudesse salvar a vida de sua sinhá menina.

Com tudo que necessitava nas mãos, com as lições que aprendera com a velha Joaquina na mente, e com a fé que tinha em todos Orixás, a negra Benedita se pôs a fazer suas benzeduras, emplastros, cura e orações. Com lágrimas nos olhos se colocou de joelhos, clamando a Deus que salvasse a jovem. E suas orações foram atendidas, pois a mesma luz que antes dera forças a negra para chegar até a grandiosa cobra, eapós fizera desaparecer o animal como por encanto, agora estava iluminando o corpo da jovem sinhá, aquecendo-o, introduzindo pelos poros as forças e energias das ervas benditas que eram utilizadas para curar as feridas e as quebraduras do frágil corpo de menina.

Na fazenda cafeeira, o negro Benedito tem um encontro incomum, pois diante dele, no momento em que fazia uma oração, aparece a imagem de um negro com ar sereno, de sorriso fraternal, lhe dizendo que sua sinhazinha corria perigo, e que ele deveria interceder ao coronel da fazenda, para junto com ele, sair para buscar a jovem.

Benedito saindo em disparada, chamando a velha Joaquina, lhe conta rapidamente o que se passou, e ela prontamente vai até os aposentos do coronel e de sua sinhá, que seguem a negra até Benedito.

Rapidamente o coronel reúne seus feitores e jagunços, e partem seguindo o negro Benedito, e esse segue as orientações da imagem do negro de olhar sereno, que os leva até a clareira onde está a negra e as duas jovens.

Ao chegar no local, o coronel vendo sua filha ainda deitada ao chão, busca entendimento, e fazendo perguntas deseja saber o que houve e como as jovens foram parar nesse lugar e nessa situação, e porque a negra Benedita, que ele acreditava que estaria na fazenda estava ali.

Mas antes de qualquer resposta explicativa, Benedita observa que a sinhazinha abre os olhos. Lágrimas nascem e se espalhampelo rosto daquele rosto de menina. Ela se ergue, abre os braços e abraça a negra, agradecendo por ter salvado sua vida, as duas choram copiosamente abraçadas.

Benedito chorando intensamente, agradece a imagem do velho negro de olhar sereno, e esse parte dando um leve sorriso.

Após as explicações dadas ao coronel, tanto pelas jovens e pela negra Benedita, ele se atira a seus pés agradecendo pela coragem e fé da mucama, que salvou sua única filha das garras da morte. Mas ela humildemente diz que nada fez, e que deveria sim agradecer a Deus e aos Orixás que a encaminharam até as profundezas das matas. E assim o coronel o fez.

Ao retornarem a fazenda, fizeram uma grande festa, e nessa festa homenagearam os negros, os Orixás, as Entidades de Luz (como o velho negro de olhar sereno), e claro, também a Benedita, ao seu primo Benedito e a velha Joaquina, que mesmo na fazenda ficando, estava em orações em prol da vida da sinhazinha.

Muitos e muitos anos se passaram, o coronel da fazenda, em estado crítico de saúde física, já não podendo mais administrar suas terras, não tendo mais como conduzir seus feitores e jagunços, passou o comando para um afilhado seu, um homem de poucos sorrisos e sem coração. Odiava os negros como se esses não fossem de carne e osso como os brancos. E esse ódio foi derramado sobre o negro Benedito quando um fato inusitado ocorreu.

Após açoitar e torturar o negro no tronco, o jovem coronel manda arrancar os dentes de Benedito, deixando-o praticamente sem vida.

Ao saber de toda covardia do jovem coronel com seu primo e amigo, a velha negra Benedita não se fez de rogada, foi até o rapaz e expressou seu descontentamento de uma forma raivosa, o jovem coronel a empurra e diz que se ela voltasse a importunar com aquele assunto, ela que iria ao tronco. Mas mesmo essas ameaças não intimidaram a velha Benedita, que continuou falando sobre a covardia intensa do coronel afilhado.


O jovem coronel enraivecido, manda seus feitores levarem a velha negra ao tronco, dizendo que será lá que ela iria morrer. Ao saber do fato, sua protetora, a sinhazinha, implora pela vida da negra, e sem dar atenção ao clamor da sinhá, o coronel afilhado continua observando seus feitores arrastar a negra para longe da casa grande sobre os gritos de desespero da sinhazinha.

Como percebeu que nada adiantaria seus pedidos de clemência pela vida da negra, a jovem sai ao encontro de seu pai acamado em seus aposentos, conta-lhe todo o sucedido, inclusive o fato sobre o negro Benedito, e pede para ele interceder e ordenar a seu afilhado a parar imediatamente com as covardias sobre os negros.

O coronel, muito fraco, manda que tragam o seu afilhado até ele, e que soltem imediatamente a negra Benedita do tronco. E assim foi feito.

Com uma longa e árdua conversa, o velho e doente coronel ordena que as coisas sejam feitas de acordo com o desejo dele, e que não ia ser admitido mais o uso da chibata e de torturas no tronco em seus negros.

O coronel afilhado fez menção de compreender as palavras do velho adoentado, mas dentro de si corria um ódio descomunal, mas conforme ordenou seu padrinho, ele obedeceu. Mandou tirar o tronco das senzalas, não mais açoitava os negros, não perseguia mais a velha Benedita.

Mas seu olhar era de vingança, seu coração não entendia o que seria entender um semelhante, sua mente perversa imaginava o dia no qual pudesse se vingar da velha negra, aquela negra que entrava e saía da casa grande como se fosse da família. Ele odiava ver a sinhazinha dando largos sorrisos a sua mucama, odiava a proteção dada por ela aos negros.

Algum tempo se passou, e o coronel adoentado fez seu desencarne, e naquele momento o afilhado viu a oportunidade de se vingar dos negros. Pelo motivo que só existia na cabeça doentia dele, mas usou desses motivos sem nexo, e do desencarne do seu padrinho para no dia após da passagem do velho coronel, mandar recolocar o tronco de torturas nas senzalas, demonstrando assim suas intenções.

Sete dias se passaram, e assim o jovem coronel da fazenda ordena a seus feitores que tragam a velha Benedita até o tronco, e assim foi feito. Sem que a sinhazinha soubesse do fato, levaram a negra para uma distante senzala abandonada, e lá, com a chibata nas mãos, a negra acorrentada ao tronco, o jovem coronel com um sorriso irônico diz a negra, que demorou mas ele iria se vingar da vergonha que ela o fizera passar diante da família do velho coronel.

Ele com todo ódio reprimido dentro de seu ser, açoita a velha negra, e cada vez mais forte e mais rápido. Após várias chibatadas, seu corpo dilacerado, sangue escorre pelas vestes, lágrimas rolam na face.

O coronel entrega o açoite nas mãos de um dos feitores, mandando que ele faça todo o serviço, pois ele desejaria apenas ficar olhando, e saborear o sofrimento da negra.

A cada chibatada o coronel dizia a velha negra, que se ela implorasse por sua vida, talvez ele a poupasse. Mas ela deveria o convencer disso. 

A negra o olha firmemente nos olhos e diz:

"Não posso implorar, pois estaria implorando não pela minha vida, mas sim pela sua. Pois a cada chibatada que me defere no corpo, está deferindo contra sua própria alma. E sua alma não mais tem salvação."

O coronel ao ouvir isso ficou com muito mais ódio. E gritando ordenou ao feitor que açoitasse a negra com mais força, pois queria ver se ela não ia implorar pela sua vida.

A cada chibatada deferida, a negra olhava mais fixamente ao coronel. Seu semblante, antes de dor, se transformava em um olhar sereno, tranquilo, em paz.

Novamente o coronel afilhado diz a negra:

"Implore negra maldita, implore pela sua vida."

Ela apenas sorriu. E em palavras serenas e lentas disse ao coronel:

"A cada chibatada dada em meu corpo e a cada gota de sangue derramado pela covardia do senhor branco, será a perda das forças do seu andar. Implore senhor coronel, implore a Deus que eu não desencarne, pois assim se acontecer, eu partirei para o reino de Deus, mas o senhor ficará se arrastando como uma cobra peçonhenta pelas terras ferventes desse mundo de branco e senhores de escravos."

E nesse instante o feitor açoita firmemente a velha negra, que fecha os olhos e faz seu desencarne, no mesmo momento que o coronel sente suas pernas fraquejarem, e ele desaba ao chão, sem forças para se mover.

Nesse dia a velha negra Benedita foi para o reino de Deus, foi abençoada em se tornar uma Entidade de Luz trabalhadora pela espiritualidade, e o coronel afilhado nunca mais deu um passo. Passou seus últimos anos de vida se rastejando pelos entornos da casa grande da fazenda cafeeira.

Na mesma noite do desencarne da velha negra, ela em espírito vai até a seu primo Benedito, a velha Joaquina e a sua amada sinhazinha, dizendo-lhes que estaria sempre junto a eles, e que logo eles estariam junto a ela no reino de Pai Oxalá.

Nos dias de hoje a sorridente, amável, brincalhona e caridosa Vovó Benedita das Almas, vem trabalhar junto a espiritualidade nos Terreiros de Umbanda, trazendo paz, caminhos abertos, saúde e muita alegria a seus filhos, consulentes e protegidos.

Fonte: umbandayorima.blogspot.com.br

PRETA VELHA MÃE BENTA



Negra esbelta, de sorriso sorrateiro e conquistador, de requebrado insinuante, andava pelo casarão deixando no ar o cheiro do manjericão. Cantarolando, sempre faceira atiçava o desejo, nos negros e também nos brancos. Não passou despercebida do olhar do patrão, sinhozinho cujos dotes de beleza também assanhavam aquela negrinha. E assim, depois de uma primeira vez, foi inevitável que todas as noites ele a procurasse na senzala. Não era só um desejo, mas além do corpo que ardia ao vê-la, seu coração estava emaranhado num sentimento ao qual ele negava. 

Foram anos de encontros furtivos, aos quais a sinhazinha fingia não ver. E muitos abortos, num dos quais a negrinha desencarnou. 

Haveria de renascer em muito pouco tempo no mesmo lugar. Negrinha doente, que sobreviveu à morte da mãe no parto. Muito cedo aprendeu a benzer e ali estava uma negra curandeira. Parteira requisitada, não tinha hora para atender, até o dia em que, para salvar uma escrava das mãos do feitor, levou uma paulada nas costas e aleijou. Andou o resto de sua vida agachada e com fortes dores, mas nem por isso deixava de salvar vidas. Desencarnou cega e arqueada, porém feliz. 

Mas havia muito a ressarcir na contabilidade do céu. Por isso, juntou-se às bandas de Aruanda e como preta velha desce à crosta para ajudar a curar e aconselhar. Precisou de um aparelho cujo comprometimento fosse adequado às suas energias, para que juntas possam aprender que é curando as feridas alheias, que as nossas cicatrizam. 

De galho verde na mão e muito amor no coração, Vó Benta visita seu aparelhinho, baixando-lhe as costas e transferindo um pouco da dor que sentiu na carne para que este saiba que a humildade se faz necessária. Seu alvo avental, ao final do trabalho está sempre cheio de nós, que ela faz, para desfazer aqueles que os filhos de fé trazem até ali. No final da noite, junta-se aos irmãos e volta para Aruanda, até que a próxima lua a traga novamente cantando: 

Vem chegando Vovó Benta
Benzedeira de Aruanda 
Com seu galhinho de Arruda
Vem benzer filho de Umbanda...

Fonte: historiasdeterreirosdeumbanda.blogspot.com.br