quinta-feira, 22 de julho de 2021

MÃE MARIA CONGA

 MÃE MARIA CONGA


Pode ser uma imagem de 1 pessoaMaria Conga, Mãe De onde ela veio, Angola, Congo, Moçambique, Guiné, Luanda, não importa, pois a sua presença representa um lenitivo para as nossos sofrimentos e uma lição de vida daquela preta velha, que com o seu cachimbo branco, saia carijó, terço de lágrimas de nossa senhora, senta-se em um toco de madeira no terreiro e conta os fatos de sua vida em terra brasileira, começando dizendo que só o fato de podermos conviver com nossos filhos é uma grande dádiva.

Vinda da África distante, filha de Pai Rei Congo e Vovó Cambinda, chegou a Bahia pelos navios tumbeiros a escrava que foi dado o nome de Maria. Como sua origem era da tribo do Rei do Congo, foi chamada de Maria Conga. Naquele tempo as negras eram coisas e destinadas a cuidar da lavoura, a procriar, a gerar filhos que delas eram afastados muito cedo, até mesmo antes de serem desmamados.

Outras negras alimentavam sua cria ou de outras escravas, assim como tantos outros candengues foram amamentados pela Mãe Maria Conga. Quase todas as mulheres escravas se transformavam em mães; cuidavam das crianças que chegavam à fazenda sem saber para onde foram enviados os seus pais, rezando para que seus próprios filhos também encontrassem alento aonde quer que estivessem. Os orixás africanos, desempenhavam papel fundamental nesta época. Diferentes nações africanas que antes guerreavam, foram obrigadas a se unir na defesa da raça e todos os orixás passaram a trabalhar para todo o povo negro.

As mães tomavam conhecimento do destino de seus filhos através das mensagens dos orixás. Eram eles que pediam oferendas em momentos difíceis e era a eles que todos recorriam para afastar a dor. Vovó Maria Conga para deixar de ser uma reprodutora passou a se utilizar de algumas ervas, e pelo fato de ser uma escrava forte, foi enviada para a plantação de cana, onde a colheita era sempre motivo para muito trabalho e uma espécie de algazarra contagiava o lugar, pois as mulheres cortavam a cana e as crianças, em total rebuliço, arrumavam os fardos para que os escravos os carregassem até o local indicado pelo feitor. Foi numa dessas ocasiões que Maria Conga soube que um dos seus filhos, afastado dela ainda no período de mamentação, tinha se tornado um escravo forte e trabalhava numa fazenda próxima.

Então o amor falou mais forte e seu coração transbordou de alegria e nada poderia dissuadi-la da idéia de revê-lo. Passou Maria Conga a escapar da fazenda, correndo de sol a sol, para admirar a beleza daquele forte negro. Nas primeiras vezes não teve meios de falar com ele, mas os orixás ouviram suas súplicas e não tardou para que os dois pudessem se abraçar e derramar as lágrimas por tanto tempo contidas. Parecia a ela que eles nunca tinham se afastado, pois o amor os mantivera unidos por todo o tempo.

Certa tarde, quase chegando na senzala, a negra foi descoberta. Apanhou bastante, foi acorrentada, mas sempre conseguia passar os seus pés pelos grilhões e não deixou de escapar novamente para reencontrar seu filho. Mais uma vez os brancos a pegaram na fuga, novamente a acorrentaram com os grilhões nos pés e como ela ainda insistisse uma terceira vez resolveram encerrar a questão: queimaram sua perna direita, um pouco acima da canela, para que ela não mais pudesse correr.

Impossibilitada de ver o filho, com menor capacidade de trabalho e locomoção, Maria Conga começou o seu lamento de dor e passou a cuidar das crianças negras e de seus doentes. De repente, Maria Conga foi encontrada calada, triste, com o coração cheio de tristeza ao saber que seu filho tinha sido morto quando tentava fugir para vê-la. Seu comportamento mudou e de alegre e tagarela passou a ser muito séria, mas sempre cuidava dos escravos doentes e de outros negros que vinham procurar o seu conselho e contava histórias de reis negros para as crianças, de outras terras além mar, onde não havia escravidão.

Um dia os escravos ao procurar pela Vovó Maria Conga dentro da senzala, estranharam o seu sono sereno e o seu semblante alegre ao dormir. Como o sol rompeu e a escrava não acordava os escravos a foram chamar, foi onde houve a surpresa, não encontraram o corpo, pois Maria Conga desencarnou e não mais estava neste plano terrestre, pois Orumilá a havia resgatado, para se tornar mais uma estrela da sua constelação. De nada adiantou os feitores açoitarem os escravos, pois os mesmos não sabiam como explicar o sumiço da escrava Maria Conga.

Paulo de Tarso, de Juiz de Fora, MG

Pai Benedito

 Pai Benedito


Nenhuma descrição de foto disponível.Seu nome foi José Benedito, desencarnou aos 90 anos de idade, nasceu na Guiné (Oceania), foi levado para a África negra por negreiros.
Um dia, quando ainda era criança, perdeu-se de sua aldeia, e foi encontrado por um velho aborígine, que antes de levá-lo para o seu povoado ficou com ele por um período de 3 meses, nos quais o aborígine procurou ensinar suas crenças a ele.

Mas José Benedito já possuía suas crenças, por isso não acreditou muito no que o aborígine lhe falou. Ao voltar para sua aldeia, ele deparou com vários negreiros, que o levaram juntamente com seu pai para o mercado da África.

Dentro do navio ele era um dos mais jovens, contava com 10 anos. O navio, que comportava 700 pessoas, tinha mais de 1500, onde todos faziam suas necessidades fisiológicas ali mesmo, onde estavam presos. Isto ocasionava muitas doenças, além das transmitidas por ratos. Durante a viagem muitos foram morrendo, e os que estavam feridos, os negreiros jogavam água com sal sobre as feridas. Durante a noite jogavam água com sal aonde os negros ficavam, por acharem que isso desinfetava o local, e de dia abriam as portinholas para que a luz do sol entrasse. Os negreiros queriam evitar as mortes, pois isso lhes causava prejuízos. Seu pai contraiu uma virose e veio a falecer, sendo seu corpo jogado ao mar.

Logo após a morte de seu pai, veio-lhe a primeira provação de fé. Sentia-se mal e sabia que tinha adquirido alguma doença, por causa da lavagem que lhes serviam. Surgiu-lhe então, a imagem do aborígine. Era tão real que ele chegou a ter certeza de que não era sonho, pois ele falava com o aborígine. Este lhe disse para parar de beber a água e de comer a lavagem que lhes davam. Ao invés, ele deveria pegar a alfafa já quase apodrecida que estava forrando o chão, e lavá-la com a água do mar que jogavam lá dentro todos os dias.

Assim o fez.

Após uma viagem de mais de 40 dias, ele finalmente chegou no continente africano, para posteriormente ser levado ao Brasil. Mas houve um atraso no negreiro, que durou cerca de 6 anos. Nesse período, trabalhando como escravo, ele entrou em contato com outras culturas, ou seja, escravos provindos de outros países.

Uma das pessoas que conheceu foi um angolano chamado Zimzumba, que era curandeiro e feiticeiro da nação nagô. Zimzumba ensinou-lhe a ler e ensinou-lhe a magia, e disse-lhe em uma de suas visões de que nada lhe adiantaria fugir, porque seria escravo por toda a sua vida, que iria ensinar a muitos negros como ser forte e lutar por seus ideais, e que viria a não mais escutar a voz das pessoas.

A princípio não entendeu, mas acreditou, lembrando-se de como o aborígine havia lhe ajudado.
Após esse período de 6 anos foi levado ao Brasil Colônia, em uma viagem de mais de 30 dias. Aportou em Parati e foi vendido em um leilão ao Sr. Patrocínio e a Sra. Joaquina, que moravam em uma fazenda no interior de São Paulo. Lá chegando conheceu o único amor de sua vida, Maria Benedita, que hoje trabalha na linha da Vovó Conga.

Passaram-se vários anos, e ele, insatisfeito com a vida que levava, viu novamente, em uma noite de lua cheia, o aborígine. Este he pediu que entrasse em contato com a cultura daquele país. Fazendo isso, teve o primeiro contato com o que seriam os Orixás.

Longe de suas crenças, e já crendo no aborígine, começou a se aprofundar nesse culto afro-brasileiro, onde acabou por casar-se com Maria Benedita. Sendo ela mucama da casa grande, pois sabia ler e escrever, conseguiu junto a seus donos que ele fosse trabalhar lá. Importante notar que seus donos gostavam muito de ambos, mas sendo ele um tanto bisbilhoteiro, acabou descobrindo uma tramóia contra o Sr. Patrocínio, urdido por seus filhos para tomarem posse das terras. Um deles, ao descobrir que José Benedito havia descoberto tudo, mandou-o de volta para a senzala, e ordenou que lhe furassem os dois ouvidos.

Foi aí que começou a sua caminhada de fé. Começou a acreditar de verdade na força espiritual dos Orixás, e passou a freqüentar mais os cultos. Nesse período conheceu quem seria seu maior carrasco. Como castigo por ter tentado avisar o Sr. Patrocínio, ele facilitou minha fuga para então me matar, mas durante a fuga surgiu uma luz forte que cegou a ele e ao capitão-do-mato, não conseguindo ele seu intento. Levou-me então de volta e permaneci vários dias no tronco, sendo chicoteado diariamente.

Mas algo lhe fazia ter forças para viver, e sabia que alguém cuidava dele.
Quando Maria Benedita veio lhe dar água, disse-lhe que estava grávida. Após alguns meses nascia José Benedito de Angola, seu único filho. Não satisfeito, o filho do Sr. José Patrocínio vendeu Maria Benedita, desagradando a Sra. Joaquina.

Seu filho ficou sendo cuidado por uma outra escrava. José Benedito revoltou-se sendo novamente amarrado ao tronco. Surgiu então diante dele a figura de uma mulher, dizendo-lhe que iria conseguir trazer Maria Benedita de volta, e de que nada adiantaria ele pegar a criança e fugir, que sua missão era ali. Ela falou-me que sairia dali e traria Maria Benedita, e voltaria ao tronco por mais alguns dias. Duvidou, mas o aborígine apareceu-lhe e disse-lhe para acreditar, pois já havia tido muitas provas.

Surgiu diante dele um homem em um cavalo branco e em seguida ele adormeceu. Quando acordou Maria Benedita estava de volta à fazenda. O capitão-do-mato passou a temê-lo, chamando-o de feiticeiro. Passou então a seguir o culto dos negros de longe, e maltratando-os menos. Passaram-se anos. Maria Benedita desencarnou antes dele, e seu filho morreu de uma doença desconhecida. José Benedito passou todos os seus conhecimentos para as gerações seguintes.

Quando desencarnou encontrou-se com o aborígine, que era seu Mentor Espiritual. Uma de suas missões era fazer com que alguém que tivesse feito muito mal às pessoas, acreditasse que poderia trabalhar no astral, ajudando a muitos. Essa pessoa foi o capitão-do-mato, que ao desencarnar foi doutrinado por Pai Benedito, e que atualmente trabalham juntos com o mesmo médium, na linha de Boiadeiro.

O principal material utilizado por Pai Benedito é um chapéu de palha, onde ele faz as suas mandingas.
Trabalha também com ervas, utilizadas para cura. Dependendo para o que for o trabalho, pode ser colocado em mata, cachoeira, mar, trilho de trem, encruzilhada, cemitério, enfim qualquer lugar, pois ele passou por todos.

MEU GLORIOSO PAI BENEDITO DE ARUANDA

Saravá o bondoso Preto-Velho de Umbanda Pai Benedito de Aruanda, alma bendita e abençoada, que um dia nasceu nas terras da velha mãe África.

Suplico a tua força para me desamarrar dessas amarguras que depositaram em minhas costas.

Pai Benedito de Aruanda, fostes um grande mirongueiro; livravas os infelizes das ganas dos males físicos e espirituais, me ajude agora e sempre, por onde meus pés cansados caminhar.

Cruza a tua pemba imaculadamente branca, pedindo o Pai Olorum, Pai Zambi, Pai Oxalá para trazer paz em minha vida e a angústia do meu coração desaparecer.

Ao fumar o teu cachimbo, tua fumaça faz desenhos no ar, carregando o medo, a calúnia e tudo o que venha fazer meu coração sofrer.

Oh! Meu Pai Benedito de Aruanda , com tuas ervas reze para abrir meus caminhos, espantando meus inimigos, os feitiços e as ciladas bem armadas, me livrando e livrando meu Anjo da Guarda.

Saravá Umbanda!

Saravá Pai Benedito de Aruanda!

PRECONCEITO

O sangue que corre
Nas veias do negro,
Não tem diferença
Do teu, meu irmão.

É filho valente
Da Pátria querida,
Amigo e patriota,
Como os brancos o são.
Que importa a cor dele,
Se no peito lhe bate,
Febril coração?
Sua alma difere
Acaso da tua? ...

Não vês o valor
Dos músculos de aço,
Do olhar altaneiro,
Do riso tão franco?

Deixa o preconceito,
O orgulho de lado
Que embota tua alma.
Esse homem que luta,
Trabalha e que chora,
Nasceu como tu,
Na terra adorada,
No berço querido,
No imenso Brasil!!! ...

Adorei as Almas

PRECE DE UM BOM VELHINHO

“Num cantinho de um terreiro, sentado num banquinho, pitando o seu cachimbo, um triste Preto Velho chorava”. De seus olhos molhados, lágrimas lhe desciam pela face e não sei por que as contei.. Foram sete. Na incontida vontade de saber, aproximei-me e o interroguei.

- Fala meu Preto Velho, diz a este teu filho, por que eterna assim, esta tão visível dor ?

- Estão vendo, filho, estas pessoas que entram e saem do terreiro? As lágrimas que você contou, estão distribuídas a cada uma delas.

- A primeira lágrima foi dada aos indiferentes, que aqui vem em busca de distração. Que saem ironizando e criticando, por aquilo que suas mentes ofuscadas não puderam compreender.

- A segunda, a esses eternos duvidosos que acreditam, desacreditando. Sempre na expectativa de um milagre, que os façam alcançar aquilo que seus próprios merecimentos lhes negam.

- A terceira, aos maus. A aqueles que procuram a Umbanda em busca de vinganças, desejando prejudicar a um seu semelhante.

- A quarta, aos frios, aos calculistas. Aos que, ao saberem da existência de uma força espiritual, procuram beneficiar-se dela, a qualquer preço, mas não conhecem a palavra gratidão e nem a Caridade.

- A quinta lágrima, vê como chega suave? Ela tem o riso, do elogio e da flor dos lábios. Mas se olhares bem, no seu semblante, verá escrito: 'Creio na Umbanda. Creio nos teus Caboclos, nos teus Velhos, e no teu Zâmbi, mas somente se vencerem no meu caso ou me curarem disso ou daquilo'.

- A sexta, eu dei aos fúteis que vão de Terreiro em Terreiro, sem acreditar em nada, buscando aconchegos e conchavos. Mas em seus olhos revelam um interesse diferente.

- A sétima filha, notas como foi grande ? Notou como deslizou pesada ? Foi à última lágrima. Aquela que nos vive 'Olhos' de todos os Orixás e de todas as entidades. Fiz doação desta, aos Médiuns. Aos que só aparecem no Terreiro em dia de festa. Aos que esquecem de suas obrigações. Aos que esquecem que existem tantos irmãos precisando de caridade, tantas 'crianças' precisando de amparo. Da mesma caridade e do mesmo apoio que eles próprios, um dia aqui vieram buscar.

Assim, filho meu, foi para esses todos que vistes cair, uma a uma, AS SETE LÁGRIMAS DE UM PRETO VELHO

Caminhos da Umbanda

Vovó Catarina

 Vovó Catarina


Pode ser arte de 1 pessoatambém conhecida como Dona Euzália
Os tambores tocavam o ritmo cadenciado dos Orixás, e nós dançávamos. Dançávamos todos em volta da fogueira improvisada ou à luz de tochas ou velas de cera que fazíamos. A comida era pouca, mas para passar a fome nós dançávamos a dança dos Orixás. E assim, ao som dos tambores de nosso povo, nos divertíamos, para não morrer de tristeza e sofrimento. Eu era chamada de feiticeira. Mas eu não era feiticeira, era curandeira. Entendia de ervas, com as quais fazia remédios para o meu povo, e de parto; eu era a parteira do povo de Angola, que estava errando naquela terra de meu Deus.

Até que Sinhazinha me tirou do meu povo. Ela não queria que eu usasse meus conhecimentos para curar os negros, somente os brancos; afinal, negro - dizia ela - tinha que trabalhar e trabalhar até morrer. Depois, era só substituir por outro. Mas Dona Moça não pensava assim. Ela gostava de mim, e eu, dela. Fui jogada num canto, separada dos outros escravos, e todas as noites eu chorava ao saber que meu povo sofria e eu não podia fazer nada para ajudar. De dia eu descascava coco e moía café no pilão. À noite eu cantava sozinha, solitária.

E ouvia o cantar triste de meu povo, de longe. Ouvia o lamento dos negros de Angola pedindo a Oxalá a liberdade, que só depois nós entendemos o que era. E os tambores tocavam o seu lamento triste, o seu toque cadenciado, enquanto eu respondia de meu cativeiro com as rezas dos meus Orixás. A liberdade, que era cantada por todos do cativeiro, só mais tarde é que nós a compreendemos.

A liberdade era de dentro, e não de fora.
Aqueles eram dias difíceis, e nós aprendemos com os cânticos de Oxóssi e as armas de Ogum o que era se humilhar, sofrer e servir, até que nosso espírito estivesse acostumado tanto ao sofrimento e a servir sem discutir, sem nada obter em troca, que, a um simples sinal de dor ou qualquer necessidade, nós estávamos ali, prontos para servir, preparados para trabalhar. E nosso Pai Oxalá nos ensinou, em meio aos toques dos tambores na senzala ou aos chicotes do capitão, que é mais proveitoso servir e sofrer do que ser servido e provocar a infelicidade dos outros.

Um dia, vítima do desespero de Sinhá, eu fui levada à noite para o tronco, enquanto meus irmãos na senzala cantavam. A cada toque mais forte dos tambores, eu recebia uma chibatada, até que, desfalecendo, fui conduzida nos braços de Oxalá para o reino de Aruanda. Meu corpo, na verdade, estava morto, mas eu estava livre, no meio das estrelas de Aruanda. Em meu espírito não restou nenhum rancor, mas apenas um profundo agradecimento aos meus antigos senhores, por me ensinar, com o suor e o sofrimento, que mais compensa ser bom do que mau; sofrer cumprindo nosso dever do que sorrir na ilusão; trabalhar pelo bem de todos do que servir de tropeço. Eu era agora liberta, e nenhum chicote, nenhuma senzala poderia me prender, porque agora eu poderia ouvir por todo lado o barulho dos tambores de Angola, mas também do Kêtu, de Luanda, de Jêje e de todo lugar. Em meio às estrelas de Aruanda eu rezava. Rezava agradecida ao meu Pai Oxalá.

Fui pra Aruanda, lugar de muita paz! Mas eu retomei. Pedi a meu Pai Oxalá que desse oportunidade pra eu voltar ao Brasil pra poder ajudar a Sinhá, pois ela me ensinou muita coisa com o jeito dela nos tratar. E eu voltei. Agora as coisas pareciam mudadas. Eu não era aquela nega feia e escrava. Era filha de gente grande e bonita, sabia ler e ensinava crianças dos outros. Um dia bateu na minha porta um homem com uma menina enjeitada da mãe. Era muito esquisita, doente e trazia nela o mal da lepra. Tadinha! Não tinha pra onde ir, e o pai desesperado não sabia o que fazer.

Adotei a pobre coitada, fui tratando aos poucos e, quando me casei, levei a menina comigo. Cresceu, deu problema, mas eu a amava muito. Até que um dia ela veio a desencarnar em meus braços, de um jeito que fazia dó. Quando eu retomei pra Aruanda, o que vocês chamam de plano espiritual, ela veio me receber com os braços abertos e chorando muito, muito mesmo. Perguntei por que chorava, se nós duas agora estávamos livres do sofrimento da carne, então, ela, transformando-se em minha frente, assumiu a feição de Sinhazinha! Ela era a minha Sinhá do tempo do cativeiro. E nós duas nos abraçamos e choramos juntas. Hoje, trabalhamos nas falanges da Umbanda, com a esperança de passar a nossa experiência pra muitos que ainda se encontram perdidos em suas dificuldades.

Referências
Extraído do Livro (TAMBORES DE ANGOLA) 

Baiana Sete Saias

 Baiana Sete Saias


Nenhuma descrição de foto disponível.A Baiana Sete Saias nasceu no norte da Bahia num vilarejo chamado Pilão Furado.

Era de uma família muito pobre, até que um dia sua mãe, Baiana Dolores, vendeu sua filha para uma dona de cabaré, Dona Carlita, por alguns fardos de arroz, feijão, camarão seco e banha de porco, para alimentar seus outros filhos, Maria Baiana Sete Saias, Maria Saias, Zé Sete Facão, Baiana Sete Coco.

Sua mãe chorava muito, pois Sete Saias era a mais velha dos filhos a quem ajudava muito nos trabalhos do lar e na pesca de camarão. Ela se despediu da família e foi morar com a dona do cabaré Carlita.

Sete Saias conta que não era mulher de cabaré, mas sim ajudava a dona Carlita na cozinha, e com os fregueses. Fazia muitas comidas como bobó, acarajé, vatapá, e outras iguarias, até que certo dia um rapaz moreno claro, olhos castanhos, cabelos cacheados e muito belo , começou a frequentar o cabaré.

Quando Baiana Sete Saias avistou ele, foi paixão na certa, ela nunca tinha namorado. A dona do cabaré tinha muito ciúmes dela com os clientes, por ela ser muito bonita, morena com cabelos até as costas, olhos castanhos claros, sábia, educada, recatada e não aceitava nem um namoro da baiana, mas eles foram se vendo cada vês mais. Ele muito apaixonado pediu sua mão em namoro para dona Carlita. Ela disse não “nem pensar tu tá doido cabra da peste” e proibiu Baiana Sete Saias, de servir o belo rapaz apaixonado.

Eles não se aguentavam mais de saudades quando marcaram um encontro através de sua amiga Baiana Flor. Ela escreveu um bilhete para Baiana Sete Saias e entregou ao rapaz ela disse “meu amor não consigo ficar sem você quero fugir, vamos?” Então ele respondeu “vamos amorzinho hoje de madrugada”. Naquela noite ela se deitou para dormir, mas não dormiu então quando todos foram dormir sua amiga disse: “vamos, seu amor te espera”, Baiana Sete Saias saiu rapidamente.

Lá fora com um burro na carroça esperava seu amor João do Cangaço, eles saíram em disparada com o burro, mas depois de mais ou menos 30 quilômetros, dona Carlita veio atrás de cavalo correndo em disparada chamando Baiana Sete Saias aos gritos.

Ela olhava para trás e dizia “vamos ela esta perto de nós vamos, vamos!”
Em desespero eles não viram um brejo muito fundo e caíram lá. Num piscar de olhos suas vidas se foram por amor, sua dona Carlita chegou até o brejo e não avistou nada. Gritava, chorava e dizia “agora eu te dou sua liberdade”.

Baiana Sete Saias morreu com 27 anos, virgem.
Hoje, na Umbanda em evolução fazer a caridade entre o bem e o mal.
Seus filhos geralmente tem medo de acidente na estrada sem saber o porquê deste medo.

Ponto de Baiana Sete Saias

Maria baiana tem sete saias,
Para trabalhar na Umbanda.
No meio das sete saias,
Tem uma que tem mironga.
Baiana faz e não manda,
Não tem medo de demanda,
Baiana feiticeira,
Filha de Nagô,
Trabalha com pó de pemba,
Pra ajudar Babalaô.
Baiana sim,
Baiana vem,
Quebra a mandinga com dendê.

lilamenez

sábado, 17 de julho de 2021

MALANDRA MARIA DO CAIS

 MALANDRA MARIA DO CAIS


Pode ser arte de uma ou mais pessoasA história:

Recife, uma cidade portuária.
Há muito tempo atrás a zona portuária
De Recife não era moderna como é hoje,
Era na verdade um bocado de portos
Bem mais simplórios
Espalhados pelo litoral.
Mas havia um, o principal
E nele se concentravam centenas
De marinheiros, comerciantes
Viajantes e imigrantes,
E no meio destes homens estavam
As prostitutas do cais do porto.
La longe do mar, em uma cidade
Pequena de Pernambuco morava
Uma jovem chamada Luana.
Bela moça de família humilde
Ela sonhava em ser professora.
Um dia chegou na cidade im homem
Muito bonito
E ela se apaixonou.
Ele a enganou, a seduziu e a abandonou.
Antes de partir ele contou para
Toda a cidade que Maria tinha sido dele.
Coitada...
Foi expulsa de casa com a roupa
Do corpo.
Que família aceitaria uma mulher desonrada?
Não tinha para onde ir
Então foi para o único lugar
Que aceitavam moças desamparadas,
O bordel.
Lá no bordel ela passou a vida toda
E por decadas foi prostituta.
Luana teve uma vida miserável,
A única luz que tinha era sua filha
Maria Isabel.
A menina foi criada no meio
Das prostitutas
Mas Luana sempre a ensinou
Sobre a vida e sempre
A protegeu.
Maria não caiu na prostituição
Mas sofria pelo estigma de ser
Literalmente filha-da-puta
Não conseguia trabalho honesto.
Maria se tornou uma meliante.
Bandida, trabalhava com contrabando
De tudo que era proibido por lei.
Luana faleceu, tubérculose era
O mal da época.
Maria agora sem a mãe
Decidiu que aquela cidadezinha
Ja não lhe cabia mais.
Ela juntou dinheiro e foi embora
Para Recife.
Em Recife o negocio dela prosperou
Pois ela fazia o contrabando direto
No porto.
Para impor respeito
Maria se vestia como um homem
Com calça, terno e chapéu.
Ela lutava pelas mulheres,
Muitas ela ajudou.
Logo ela ganhou fama
Era aclamada "Maria do Cais"
A amiga dos povo e pesadelo
Dos inimigos.
Foram anos enricando com a criminalidade,
Mas algo inesperado aconteceu,
Ela se apaixonou por um rapaz,
Fernando, o carioca.
Eles dois ficaram juntos
Quase como marido e mulher
Mas ele a traiu.
A traição dele não foi ter
Se envolvido com outra,
Nada disso,
O que ele fez foi pior.
Ele roubou Maria,
Tentou dar um golpe nela
E ser tornar dono dos negócios.
Mas não deu outra,
Maria declarou guerra.
Foram meses atribulados
Onde não era seguro andar no cais
Após o sol se por.
Maria liderava um grupo de capangas
Que seguiam as ordens dela
E em uma sangrenta guerra de gangues
Eles foram se matando.
Maria e Fernando disputaram
A liderança e o domínio do contrabando
Mas de modo muito desleal
Ele a pegou em uma emboscada a matou.
Até hoje Maria do Cais é conhecida
Como uma das mulheres mais fortes
Que já existiu.

Felipe Caprini